Teologia

O fim último do homem, a realeza de Nosso Senhor Jesus Cristo, e A Candeia Debaixo do Alqueire

O fim último do homem, a realeza de Nosso Senhor Jesus Cristo, e A Candeia Debaixo do Alqueire,

do P. Álvaro Calderón

 

Carlos Nougué

“Entre o frade humilde”, diz o Pe. Álvaro Calderón em Vaticano II: La Religión del Hombre, “que trabalha em sua própria perfeição por amor à vontade de Deus e o [frade] orgulhoso que cumpre o que Deus manda por amor à sua própria perfeição pode haver uma grande semelhança em atos e palavras […], mas há um abismo entre os dois. O primeiro está a serviço de Deus, e o segundo tem Deus a seu serviço.”

Com efeito, a própria santificação das almas não pode ser o fim último simpliciter do homem (o fim que Santo Tomás de Aquino chama finis cuius), mas tão-somente fim último secundum quid (o que o Angélico chama finis quo), ou seja, um fim por meio do qual se alcança o verdadeiro e único fim último: Deus mesmo. Mais que isso, porém: nem sequer a beatitude eterna, a fruição da visão face a face de Deus, pode considerar-se o fim último do homem em sentido próprio, pois, como diz ainda Santo Tomás, “a beatitude se diz fim último [somente] no sentido em que o atingimento [ou gozo] do fim se chama fim” (I-II, q. 3, a. 1, ad 3).

Repita-se, pois, ainda e sempre: “o fim último da criação não pode ser outro senão Deus em si mesmo [grifo nosso], o Bem incriado, porque o fim sempre tem razão de última perfeição, e, se se dissesse que Deus cria por algum bem criado, a criatura aperfeiçoaria o Criador” (P. Álvaro Calderón, ibid.). E dizer que o fim último é Deus em si mesmo é dizer, em outras palavras, que o fim último é a glória de Deus, glória extrínseca, uma vez que Sua glória intrínseca, por perfeita, não admite aumento nem detrimento; é a glória devida pela criatura ao Criador. E, conquanto analogicamente até se possa identificar a glória de Deus “re et ratione com a santificação das almas” (idem), propriamente a glória de Deus deve entender-se como o próprio Sumo Bem glorificado.

Não o aceitar, sustentar aquele desvio da afirmação central da Fé católica – desvio teologicamente sutil, mas basilar – já é incorrer numa forma de humanismo; e, com efeito, humanismo não é senão outro nome da rebelião do homem contra Deus: a rebelião que quer ver a perfeição de fim não no Modelo, mas na imagem; não na Causa, mas no efeito; não no Ser, mas no ente. Mais ainda, a rebelião humanista é, mutatis mutandis, a mesma de Lúcifer: assim como este se ofuscou com a luz que ele próprio portava a ponto de negar-se a se curvar diante d’Aquele que lhe participou essa luz, assim também nossos primeiros pais se ofuscaram com a falsa promessa de serem como deuses e comeram do único fruto que, comido, lhes acarretaria a perda do estado de justiça original e a morte.

Se assim é, se aquele desvio é já incorrer em humanismo, que dizer então do sustentar que Deus criou o homem para a própria glória do homem em si, independentemente até de sua santificação? E falar em glória do homem é falar, como Maritain e seu grande fruto, o Concílio Vaticano II, em “dignidade do homem”, em “dignidade da pessoa humana” – “que Deus ama e criou por si mesma” – e coisas que tais, repetidas ad nauseam com fumos até de tomismo (naturalmente, digo, de um tomismo descontextualizado e adulterado). Estamos no bojo do humanismo católico, que, como diz o P. Calderón, é a própria “religião do homem”, e que se pode dizer católico “enquanto vive das forças da Igreja”, mas é anticatólico “quanto à sua finalidade. É muito semelhante a um câncer, que vive e cresce pelas forças vitais do organismo e tende a matá-lo. (Nota: Não é propriamente um parasita, porque não tem organismo distinto do de seu hóspede. É uma subversão do catolicismo.) Assim como chamamos o tumor que se dá no cérebro de tumor cerebral, assim também chamamos de ‘católico’ o catolicismo conciliar” (idem).

Esse humanismo católico moderno, tecido de idéias católicas, como diria Chesterton, tornadas loucas; esse humanismo católico, filho do modernismo, da chamada nova teologia, da pretensamente tomista filosofia de Maritain, da pretensamente tradicional eclesiologia de Charles Journet; esse humanismo católico, diga-se, quer-se efetivamente católico, e quer-se hierarquia da Igreja. Não quer afastar-se dela, precisamente porque aprendeu com a História que o humanismo que se descatoliciza morre como morrem quaisquer células cancerosas retiradas do organismo em que proliferavam. Não é esta, precisamente, a lição que se pode tirar do radicalismo renascentista, da Reforma protestante e sua multidão interminável de seitas, do liberalismo e do revolucionarismo e todo o seu cortejo de entropia, e desordem, e perversão, e guerras, e genocídios? Sim, ele quer-se católico; mas, pela própria natureza e força das coisas, como humanismo que é, sustenta pontos doutrinários centrais daqueles mesmos radicalismos de que tenta em parte afastar-se mantendo-se católico.

Com efeito, como seria humanismo se reconhecesse que o homem não é um ente exclusivamente natural, mas foi criado conformado ao sobrenatural, é filho do pecado por punição sobrenatural, e tem por destino eterno uma vida sobrenatural ou uma morte sobrenatural? Como seria humanismo se reconhecesse que a única dignidade do homem ferido pelo pecado original é a dignidade de redimido pela Cruz? Como seria humanismo se não atribuísse uma independência e bondade natural à arte, à política, à cidade, à História, e reconhecesse a Realeza de Nosso Senhor Jesus Cristo não só sobre cada uma das almas, mas sobre a arte, sobre a política, sobre a cidade, sobre a História – sobre TUDO? Como seria humanismo se não fosse caudatário de Dante e seus dois fins do homem; de Marsílio de Pádua e sua independência do poder temporal com relação ao poder espiritual; de Maquiavel e sua tirania da inverdade que, ao fim e ao cabo, se tem de fantasiar de democracia para engodo das massas? Se enfim reconhecesse que todos os fins do homem além de Deus mesmo e sua glória não são senão fins intermediários e, portanto, meios para a glorificação do zeloso Senhor do Universo, e cantasse com o salmista: “Ó reis, compreendei; juízes da terra, instruí-vos. Servi ao Senhor com respeito, beijai-lhe os pés com tremor”?

Ora, nos antípodas dos humanismos de todos os tipos, escrevia São Pio X: “… não se edificará a cidade de modo diferente de como Deus a edificou; […] não, a civilização não está por inventar, nem a nova cidade por construir nas nuvens. Ela existiu, existe: é a civilização cristã, é a cidade católica. Não se trata senão de instaurá-la e restaurá-la, sem cessar, sobre seus fundamentos naturais e divinos, contra os ataques sempre novos da utopia malsã da revolução e da impiedade: ‘omnia instaurare in Christo’” (Notre charge apostolique, sobre o Sillon). Pois bem, como é possível que apenas 60 anos depois de aquele Santo Papa ter escrito isso tenha sido aprovado por um Concílio e pelos Papas conciliares um documento como a Constituição Gaudium et spes, que faz a Igreja servir ao mundo pelo e para o mundo, em vez de fazê-la dirigir o mundo por e para Deus e sua maior glória?

Pois a resposta, magistral e irretorquível, a essa questão, e à premente questão central do catolicismo nos últimos 50 anos – a relativa à autoridade doutrinal do magistério eclesiásti­co a partir do Concílio Vaticano II –, se encontra precisamente no livro do Padre Álvaro Calderón A Candeia Debaixo do Alqueire, publicado pelo Instituto Angelicum e pelo Mosteiro de Santa Cruz. É obra indispensável para o católico que, em meio à babel doutrinal que se instalou na Igreja desde o Concílio Vaticano II, se quer vinculado ao Traditum, ao magistério infalível da Igreja e, pois, à Verdade.

Publicado originalmente no blog “Contra Impugnantes” e revisado pelo autor especialmente para este site.
Marcel Barboza Administrator
O responsável pelo site é Licenciado em Filosofia pela Universidade Católica Dom Bosco (UCDB) e Especialista (pós-graduado) em Filosofia e Ensino de Filosofia pelo Centro Universitário Claretiano (CEUCLAR). Editor e professor.
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