Massimo Borghesi
A Serpente, o tentador, aparece nas vestes do libertador,
daquele que
eleva o homem para além do bem e do mal, para além da "lei",
para
além do Deus antigo, inimigo da liberdade. Os últimos duzentos
anos
vêm redescobrindo o princípio libertador do mundo afirmado
pela seita dos Ofitas, princípio vislumbrado, pela concepção
sabatiana,
com seu Messias entregue às
serpentes
OS OFITAS: A SERPENTE
COMO LIBERTADOR
Há mais de dois séculos a cultura ocidental se compraz
do mal, abranda-o, justifica-o.
O
negativo é fonte de
vertigens, do delírio da onipotência, de emoções inconfessáveis;
ilumina com clarões avermelhados as
veredas proibidas, os
abismos da noite, os picos
congelados. Suas cores
tingem o peculiar titanismo
moderno, o desafio
provocador que este lança ao
Eterno. Se o Fausto antigo,
o de Marlowe, se arrepende
na hora da morte, o posterior vive do ultraje, anseia
pela dissolução. O
pacto com a
Serpente,
titulo dado
por Mario Praz a um de seus últimos livros1, hoje se
torna estável. A Serpente, o tentador, aparece nas
vestes do libertador, daquele que eleva o homem para
além do bem e do mal, para além da "lei", para além
do Deus antigo, inimigo da liberdade. Os últimos duzentos
anos vem redescobrindo "o princípio libertador
do mundo [afirmado] pela seita dos Ofitas”2,
princípio vislumbrado, segundo Gershom Scholem,
pela
concepção sabatiana, com seu Messias entregue
às "serpentes"3. Princípio
reafirmado por Ernst Bloch
em seu Ateísmo no
cristianismo, onde o Cristo-Serpente
liberta o mundo da tirania de Yahweh4.
Goethe,
segundo Vittorio Mathieu, também "ouvira falar da
seita dos Ofitos"5.
Em seu
Goethe e seu diabo da
guarda,
Mathieu
observa como em Fausto
Mefistófeles é
a "força que, das trevas, faz vir à tona o positivo
do homem"6. Como afirma
Deus, dirigindo-se a Mefistófeles
no
Prólogo no Céu,
"Não deves senão mostrar-te, livremente, como o que
és;
nunca odiei os teus pares; de
todos os espíritos que
negam, o zombeteiro é
o que menos me
aborrece. A atividade do homem
se enfraquece muito facilmente,
e ele
se deitaria
com prazer num repouso absoluto. Por isso ponho ele
bom grado a seu lado um companheiro que o estimule,
e aja, e que tem, como Diabo, de criar"7.
O
Diabo é
posto
de bom grado
("gern") por Deus como colaborador
do homem. Como notava Mircea Eliade, "se poderia
falar de uma simpatia orgânica entre o Criador
e Mefistófeles"8. Goethe faz
de Mefistófeles, do mal, a
mola que leva à ação
("Tat") àquilo que é
positivo. Trata-se da
idéia, destinada a ter ampla difusão, segundo a qual o
caminho para o Céu passa pelo inferno.
O homem só se torna
homem, vivo, inteligente,
livre, saboreando até o
fundo o sabor amargo da vida.
Ao contrário, a inocência
da "alma boa" é inércia, êxtase,
morte. Hegel, com sua dialética do negativo, dará uma suntuosa
veste teórica a essa idéia. O
homem
deve
pecar, deve sair da inocência natural
para se
tornar
Deus. Ele deve realizar a promessa da Serpente:
deve
conhecer,
como Deus, o bem e o mal. Esse
conhecimento "é a origem da doença, mas também
a fonte da
saúde, é
o cálice envenenado no qual o homem bebe a morte e a
putrefação, e ao mesmo tempo
o ponto em que nasce a
reconciliação, uma vez que
pôr-se como mau é em si a superação do mal"9. Nessa
perspectiva, a figura do
Anjo rebelde, daquele que, provocando o homem, o
alçaria à sua liberdade, ganha um novo esplendor. Passo a
passo, Mefistófeles se
torna o herói, o Prometeu moderno, o libertador.
"Sem buscar aqui as suas causas profundas", escrevia
Roger Caillois em 1937, "é
preciso constatar o quanto
um dos fenômenos psicológicos
mais cheios de conseqüências
do inicio do século XIX tenha
sido o nascimento e a difusão
do satanismo poético, o fato de o escritor assumir de bom
grado o papel do Anjo do Mal e com este sentir afinidades
precisas. Sob essa luz, o romantismo parece em parte uma
transmutação de valor”10, de Byron a Vigny, a “mitologia
satânica” elabora a figura de um “Anjo do Mal”, rebelde e
vingador, cujas premissas remetem ao passado.
SATANÁS CONTRA DEUS
Com razão, Mario Praz, em seu A carne a morte, e o
diabo na literatura romântica, até hoje a obra mais
interessante sobre o fascínio exercido sobre a literatura do
século XIX por tudo o que é demoníaco, indica o início desse
processo na caracterização peculiar de Satanás oferecida por
Milton em seu Paraíso Perdido. “Foi Milton quem
conferiu à figura de Satanás todo o fascínio do rebelde
indômito que já pertencia às figuras do Prometeu de Espio e do
Capaneu de Dante”. O Adversário “se torna estranhamente belo”.
Como escrevia Baudelarie: “Le plus parfait type de Beaute
virili est Satan – à La Manière de Milton” 13. Em
contraposição, observa Herald Bloom, “o Deus de Milton é uma
catástrofe”, tal como o Cristo, que “é um desastre poético no
Paraíso Perdido” 14. Para Black, “Milton não se sentia
livre ao escrever de Deus e dos Anjos e à vontade uando
escrevia dos Demônios e do inferno, pois era um verdadeiro
Poeta, e da parte do Demônio sem o saber” 15. Um juízo que é
perfeitamente compartilhado por Shelley, para o qual “nada
pode superar a forma como a energia e o esplendor do caráter
de Satanás se encontram expressos no Paraíso Perdido
[...]. O demônio de Milton, enquanto ser moral, é muito
superior ao de Deus” 16.
Impávido indômito, o príncipe das trevas aparece como
incansável lutador contra a tirania divina. Satanás é
Prometeu, toma o lugar do mítico Titãn acorrentado por Zeus à
rocha que a imaginação de Ésquilo imortalizou. O Prometeu
moderno se opõe ao Deus hostil, malvado. O luciferiano Satanás
parece melhor que o Criador: “Milton confere claramente uma
posição gnóstica à Satanás, segundo a qual Deus e Cristo são
somente versões do Demiurgo” 17. O verdadeiro afirmativo
é o demônio. É ele, e não o anjo obediente, que parece, ética
e esteticamente, dotado de um fascínio maior. Como afirma
Hegel: “Quando se apresenta, o Diabo precisa demonstrar que
nele há um afirmativo: sua força de caráter, sua energia, seu
espírito consequencial, parecem muito melhores, mais
afirmativos que os de alguns anjos”. “É o que ocorre em
Milton”, acrescenta Hegel, “onde o Diabo, com sua energia
cheia de caráter, é melhor que alguns anjos” 18.
Assim, graças a Milton, à sua reelaboração mítica,
Satanás ingressa no imaginário moderno. Tem-se com isso o que
Praz chama, num capítulo de sua obra, à metamorfose de
Satanás, sua passagem de figura negativa à herói positivo: o
rebelde triste, privado de sua felicidade paradisíaca, como o
homem, por um deus tirano. Em seu estudo, Praz documenta, com
grande perícia, autores e correntes que assumem a mitologia
satânica. Se no século XVIII “o Satanás de Milton passou seu
fascínio sinistro para o tipo tradicional do bandido generoso,
do sublime delinqüente” 19, é no século XIX na tempérie
romântica, que se torna rebelde, a expressão da revolta
metafísica, do “não” à Criação. Foi Byron “quem levou à
perfeição o tipo do rebelde, descendente distante do Satanás
de Milton” 20. Com Byron o rebelde se torna o “estrangeiro”, o
homem impenetrável que transcende a maneira ordinária de
sentir, que transcende seus próprios crimes., é o super-homem
que está mais acima e ao mesmo tempo mais abaixo dos outros
homens. É o infeliz que se alimenta de ressentimento para com
um deus cruel do qual imita a crueldade. A teologia de Byron
é, segundo Praz, a mesma de Sade, cuja obra, segundo o autor,
tem uma influência fundamental na literatura romântica. No
centro está o ódio para com a criação e seu autor, a exaltação
do prazer e do crime como escárnio, profanação, ultraje. Para
Praz, estamos aqui diante de um “satanismo cósmico” 21. Sua
influência é enorme. Se a natureza cria apenas para destruir,
seguir a natureza é repetir eu ritmo, o prazer pela
destruição, o gosto “sádico” que faz surgir o prazer pela dor,
o delírio do aniquilamento, o divino a partir do diabólico. É
a pintura de Delacroix: “Esse pintor ‘canibal’, ‘moloquista’,
‘dolorista’ que foi Delacroix, com uma curiosidade incansável
por massacres, incêndios, saques, pelos putrideros,
ilustrador das cenas mais sombrias do Fausto e dos
poemas mais satânicos de seu idolatrado Byron; esse apaixonado
pela fenilidade [...] e pelos países violentos e calorosos”
22. É a poesia de Baudelarie, alimentada por Poe e Sade, cujo
pessimismo cósmico é mais semelhante a heresia maniqueísta que
é a religião cristã: “Abosolu! Resultante dês contraíres!
Ormuz et Arimane, vous ètes le même!” 23. É a natureza de
Flaubert, para qual “Néron vivra aussi longtemps que Vespasien,
Satan que Jésus-Christ” 24. é a dos Cantos de Maldoror
de Lautrémount, o qual confessa ter “cantado o mal como
fizeram Mickiewicz, Byron, Milton, Southey, A. de Musset,
Baudelaire” 25. É a de Swinburne, que, fascinado pela teologia
gnóstica de Sade, declama seu homem em revolta: “... se
pudéssemos deter a natureza, então sim o crime se tornaria
perfeito e o pecado uma realidade. Se o homem pudesse fazer
isso, se pudesse parar o curso das estrelas e alterar o tempo
das marés; se pudesse mudar os movimentos do mundo e encontrar
a fonte da vida e destruí-la; se pudesse entrar no céu e
contamina-lo, no inferno e liberta-lo da sujeição; se pudesse
erguer o sol e consumir a terra, e ordenar à lua que
derramasse veneno ou fogo no ar; se pudesse matar o fruto da
semente e corroer a boca do bebê com o leite de sua mãe; então
o homem poderia dizer ter pecado e ter feito mal contra a
natureza” 26.
Destruição e profanação: esse é o prazer maior! Um
filão consistente da literatura, a partir do romance libertino
do século XVIII, goza da profanação. A violação apaixona
enquanto transgressão, ultraje. O corpo, o da mulher, será
tanto mais objeto do desejo quanto mais for indefeso (a
criança, a virgem, a freira). Profana-lo é tirar a
transcendência, reconduzir à terra, revelar o rosto obscuro de
Eva, o eterno feminino para sempre ligado ao poder de Satanás.
O demoníaco mescla o puro e o impuro, precisa da inocência
para excitar as paixões, para despertar a força explosiva do
negativo. Com Sade o Eros se torna parte de uma teologia
gnóstica. Depois dele o conúbio entre Eros e Tânatos, amor e
morte, passa a ser o elemento dominante de um niilismo
luciferino que encontra no Decadentismo, primeiramente, e nos
Surrealismo, depois, sua plena realização.
SATANÁS EM DEUS
Satanás não é só o Prometeu, dublê do Anjo
caído de
Milton. Satanás está também em Deus. A teologia
gnóstica que está no centro do ateísmo rebelde
dos últimos
dois séculos distingue entre Lúcifer (o libertador)
e Satanás (o opressor). Ela encontra sua forma
exemplar
no pensamento de Ernst Bloch. Para Bloch, há,
“de um lado, o Deus do mundo que se identifica
cada
vez mais claramente com Satanás, o Inimigo, o
estagnado;
de outro, o Deus da futura ascensão ao céu, o Deus que se
impulsiona para frente com Jesus e com
Lúcifer” 28.
0 deus do mundo,
criador, é o mau demiurgo
contra o qual, no Éden, se ergueu
a Serpente, verdadeira
amiga do homem. É Lúcifer,
com seu desejo
de ser como
Deus, que revela ao homem a
sua destinação. “Só em Lúcifer,
mantido secreto em Jesus
para ser manifestado mais tarde,
no final, nos tempos em
que esse rosto poderá se revelar;
só em Lúcifer, inquieto
desde quando foi abandonado pela segunda vez,
desde quando,
da cruz, ergueu-se o grito
que ficou sem resposta, desde quando, pela segunda vez,
foi esmagada a cabeça da
Serpente do paraíso
presa na cruz: só
nEle, portanto, no Escondido
em Cristo, enquanto
anti-demiúrgico absoluto,
está compreendido também o
autêntico elemento
teúrgico de quem se revolta porque é
filho do
homem" 28.
Como para a seita elos Ofitas
lembrada por Bloch em
Ateísmo no cristianismo, a
Serpente é, portanto, a libertadora. Duas vezes subjugada,
no
Éden e no
Cristo levantado na cruz como a
Serpente de bronze de
Moisés, ela espera por sua vingança, por sua vitória sobre o Demiurgo que abre a
"era do Espírito".
Unindo Marcião e Joaquim
de Fiore, Bloch é a encruzilhada de toda á gnose
moderna.
Jesus,
antecipação do deus
que
virá, do deus “humano”,
é o redentor desde deus "satânico", desde deus
do cosmo, da ordem e da
lei. A revolução, como dissolução da velha ordem, torna-se aqui a obra luciferina
por
excelência.
Como ilustre precedente de suas reflexões,
Bloch
chama a atenção, em Ateísmo no cristianismo,
para
a figura de William Blake. O poeta inglês,
fascinado pela revolução
americana e pela francesa, teve, além da Bíblia, quatro
mestres: Milton, Shakespeare,
Paracelso, Böhme. Ao
primeiro dedicou um breve poema
épico, Milton, composto provavelmente entre 1800
e 1803. Nele Urizen, o
Príncipe da Luz, parece idêntico
a Satanás. O que é peculiar em Blake é o seu
The
Marriage of
Heaven and Hell
(O matrimônio do Céu
e
do Inferno), escrito em
1790. Aqui a santificação
dos impulsos e dos desejos,
in primis
o sexual,
for
everyrything
that lives
is Holy
(sendo que todas as coisas
vivas são Sacras!), obtém a sua consagração teórica. Para ela
não há mais o mal que nega o
bem: mal e
bem são ambos necessários.
"Sem Contrários não há
progresso. Atração
e
repulsa, Razão e Energia,
Amor e Ódio são
necessários para a existência Humana.
Desses contrários brota o que o homem religioso
chama Bem e
Mal. Bem é a passividade que obedece à Razão. Mal é a
atividade que brota da Energia. Bem é o Céu. Mal é o inferno”
29.
O
mal, como no Fausto de Goethe, é
o que dá energia, o que desperta o bem
adormecido. O
Diabo é a força de Deus. Nessa
sua concepção, Blake
era devedor daquele
que, em primeiro lugar, no arco
do pensamento moderno, ousara afirmar
o mal em Deus: Jacob Böhme. O
philosophus teutonicus, que, segundo
Hegel, “foi o primeiro a fazer surgir na
Alemanha uma filosofia com características
próprias” 30, estimado por Leibniz,
Hegel, Schelling, Von Baader e todo
o filão teosófico do pensamento moderno,
é aquele para o qual, “segundo
o primeiro
princípio, Deus não se
chama
Deus,
mas Cólera, Furor, fonte
amarga, e vêm daqui o mal, a dor, o tremor
e o fogo devorador"31. A ira de
Deus é superada no amor; apesar disso,
ela permanece o Urgrund, o princípio
originário de tudo. Böhme, segundo
Hegel, “lutou para entender em Deus e
de Deus o
negativo, o mal, o Diabo” 32.
Deus
é
a
unidade dos contrários,
da ira e do amor,
do mal e do bem,
do Diabo e
do seu oposto, o Filho. Nessa posição,
Cristo e Satanás se tornam de algum
modo irmãos, filhos de um único Pai,
partes dEle, momentos da sua natureza
polar. É
o que afirmará Carl
Gustav Jung
em seu esotérico
Septem
Sermones ad
Mortuos, escrito
em 1916, que seus amigos fizeram circular como
opúsculo mas nunca chegou às livrarias. O texto, que idealmente
segue o gnóstico Basilide, afirma a natureza
de "pleroma" de Deus, composto por duplas de
opostos das quais “Deus
e o demônio são as primeiras manifestações” 33. Eles se distinguem
como geração e corrupção,
vida e morte. Todavia,
“a efetividade é comum
a ambos. A efetividade os une. Portanto, a efetividade
está acima deles e é um deus acima de Deus, já
que seu efeito une plenitude e vazio” 34.
Esse deus que une
Deus e o Diabo é chamado, por Jung, Abraxas. Ele
é a força originária, que vem antes de qualquer distinção.
“Abraxas gera verdade e mentira, bem e mal, luz
e trevas, na mesma palavra e no mesmo ato. Por isso Abraxas é terrível” 35.
Ele é “o amor e o seu assassino”,
“o santo e o seu traidor”, é “o mundo, o seu devir
e o seu passar. Sobre todo dom do Deus sol o demônio
lança a sua maldição” 36. A
mensagem esotérica
dos
Septem
Sermones
levava, como em Blake,
à santificação
da natureza, à inocência do devir. Isso implicava,
por si mesmo, a justificação do mal, do Diabo, a sua
inserção, como em Böhme, num sistema polar. Não por acaso Martin Buber, tomando
conhecimento do
opúsculo, falará nesse caso de gnose.
“Ela - e não o
ateísmo, que anula Deus porque tem de refutar as imagens
que dele foram feitas até agora - é a verdadeira antagonista
da realidade da fé” 37. Para
Buber, a psicologia
de Jung nada mais constituía senão “a retomada do mote carpocratiano, ensinado agora como psicoterapia, que diviniza
misticamente os instintos em vez de santifica-los na fé” 38.
O aspecto destacado por Buber não era puramente
conjetural. Fora o próprio Jung que, em Psicologia
e religião, chamara a atenção para a atualidade do
gnóstico Carpócrates, o qual afirmava que "bem e
mal são apenas opiniões
humanas, e que as almas,
antes de sua partida,
teriam de viver até a última todas as experiências
humanas, se quisessem evitar voltar à
prisão do corpo. Somente o
completo cumprimento
de todas as exigências da vida pode resgatar a alma
prisioneira no mundo
somático do Demiurgo"39 A vi-_
da, afirmava no Ensaio
de interpretação
psicológica
do
dogma da
Trindade, "enquanto processo energético, precisa dos
contrastes, sem os
quais a energia- é
notoriamente impossível
Bem
e mal
nada mais são
que os aspectos éticos dessas antíteses
naturais".
E, por isso que,
para Deus, Lúcifer é necessário. "Sem
este último não haveria
criação, e muito menos teria
havido alguma história de
redenção. A sombra e o
contrasta: são as condições
necessárias de qualquer
realização`". Essa sombra
está antes de mais nada em Deus, no Deus primigênio, no
Inconsciente que, para Jung, é a verdadeira potência que
dirige a vida, a qual deve
ser "humanizada" pelo eu consciente. Só
no Deus humano, Cristo, o
juízo separa o que no pleroma
(o inconsciente) está
unido: a luz e a sombra.
Ora, os "dois filhos de
Deus, Satanás, o mais velho, e
Cristo, o mais novo"-",
a mão esquerda e a mão
direita de Deus, se
separam. "Essa antítese representa um
conflito levado ao extremo,
ë com isso
também
urna
tarefa secular para a humanidade, até o ponto ou a
circunstância do
tempo em
bem e
mal começarem
a relativizar-se, a pôr-se em duvida, e se elevar o
grito por algo além do bem
e do mal. Mas, na era cristã, ou seja, no reino do
pensamento trinitário, semelhante
reflexão é simplesmente excluída, pois o
conflito é violento demais
para que se possa conceder
ao mal alguma outra relação
lógica com a Trindade
que não seja o contraste absoluto"43. E preciso que a
Trindade divina,
espiritual, se concilie com um "quarto"
princípio: a matéria, o corpo, o feminino, o eros, o
real, para que o idealismo cristão, conciliado com o inundo,
chegue a uma unidade superior. "Pois, mesmo
no tempo da fé absoluta na Trindade, houve
sempre uma busca do quarto
perdido, desde os neopitagóricos
gregos até o Fausto de Goethe. Ainda que esses
buscadores se considerassem cristãos, eles
eram todavia uma espécie de
cristãos a latere,
uma vez
que consagravam sua vida ao opus, que tinha como
meta a redenção do serpens quadricornutus, da
anima mundi enredada na matéria, do Lúcifer decaído.
(...] Nossa fórmula
da quaternidade dá razão à sua
pretensão, pois o Espírito
Santo, como síntese daquele
que foi originariamente Uno e depois cindido,
flui de uma fonte luminosa e de uma obscura"". A
"era do Espire-o",
na peculiar interpretação que Jung
dá de Joaquim de Fiore, é a
era que se segue ao eone cristão, o tempo de Abraxas em
que paixões e razão.
inconsciente e consciente, mal e bem, Lúcifer e Cristo,
se tornarão um.
Em 1919, Hermann Hesse, que em 1920 se submeteria
a análise com Jung, publicou um romance,
Demian, sob o pseudônimo de
Emil Sinclair. Nele, o
protagonista, um jovem inexperiente, é instruído
sobre o sentido da vida por
um espírito "livre" que
carrega em si o sinal de
Caim: Demian. Para Demian,
"o Deus do Antigo e do Novo
Testamento é uma figura excelente, mas não é a que
deveria ser. É o bem, a
nobreza, o pai, o alto, o belo, o sentimental: todas
coisas boas, mas o mundo é
feito também de outras
coisas. E isso é atribuído simplesmente ao Diabo, e
toda essa parte do mundo,
essa metade é suprimida e morta com o silêncio"". A ela
pertence, segundo Demian,
a esfera sexual. Por isso não se pode apenas
venerar a Deus, "devemos
venerar e considerar sagrado
o mundo inteiro, não apenas essa metade oficial, separada
artificialmente. Ao lado do serviço para
Deus deveríamos ter também um serviço para o
Diabo. A mim pareceria
justo. Ou então
deveríamos
procurar
um
Deus que
reúna também o demônio"'46. Como
em Jung, esse "Deus se chama
Abraxas e é Deus e Satanás
e abraça em si o mundo luminoso e o mundo escuro". É o amor
sagrado e o amor
profano, "a imagem angélica e Satanás, homem
e mulher ao mesmo tempo, homem e fera, supremo bem e mal extremo".
A visão do divino
como coincidentia
oppositorum, versão que sela de forma
indissolúvel o "pacto com a Serpente", atravessa, dessa forma,
uma
parte conspícua do mundo cultural do século XX.
Lembramos, entre outras, a reflexão de Mircea
Eliade, que em dois
escritos, O mito da
reintegração
(1942) e
Mefistófeles e o Andrógino
(1962), expõe,
a partir das sugestões de Jung, sua visão da "polaridade
divina". Nessa visão, toda divindade parece po lar,
benéfica e maléfica ao mesmo tempo. A Serpente é irmã do Sol,
tal como, segundo um mito gnóstico, seriam irmãos Cristo e
Satanás. Essa bi-unidade divina prepara, no homem, a
reintegração de sagrado e profano, de bem e mal numa unidade
superior que encontra, para Eliade, sua meta simbólica na
figura do andrógino.
CONCLUSÃO
A moderna
teosofia dos opostos, baseada na doutrina hermética da
coincidentia oppositorum, leva a um conúbio, inquietante,
entre divino e diabólico, leva à idéia do Diabo em Deus.
"Encontra-se por toda parte", escrevia Romano Guardini em
1964, "a idéia gnóstica fundamental de que as contradições são
polaridades: Goethe, Gide, C. G. Jung, T. Mann, H. Hesse...
Todos vêem o mal, o negativo [...j corno elementos dialéticos
na totalidade da vida, da natureza"49. Essa atitude, para
Guardini, "já se manifesta em tudo o que se chama gnose, na
alquimia, na teosofia. Apresenta-se de forma programática com
Goethe, para o qual o satânico entra até mesmo em Deus, o mal
é força originária do universo tão necessária quanto o bem, a
morte apenas outro elemento nesse todo, cujo pólo oposto se
chama vida. Essa opinião foi proclamada de todas as formas e
concretizada no campo terapêutico por C. G. Jung”50.
A idéia de
fundo é que a redenção passa pela degradação, a graça pelo
pecado, a vida pela morte, o prazer pela dor, o êxtase pela
obra da perversão, o divino pelo diabólico. O fascínio que o
negativo - metáfora do demoníaco - exerce sobre a cultura
contemporânea deriva dessa idéia singular: que os caminhos do
paraíso passam pelo inferno, que "Descida ao Ades e
ressurreição" são uma coisa só51.
Entregar-se
ao demônio é abrir-se a Deus, numa singular transposição
gnóstica da idéia segundo a qual perder-se é encontrar-se.
Nesse "sagrado" conúbio, Satanás e Deus se unem no homem. É a
Identidade de Sade e dos místicos"52 desejada por Georges
Bataille. Segundo ela, o caminho para baixo coincide com o
caminho para cima. Fausto, agora, não pode mais se arrepender,
nem na hora da morte. O Adversário tornou-se cúmplice, "parte"
de Deus. É o caminho para se tornar deus. A emoção do nada, da
descida aos Infernos, acompanha a descoberta do Ser, de
Abraxas, o pleroma sem rosto que permanece, imóvel, no devir
do mundo.
Notas
1 M. Praz.
11 patto col serpente. Milão, 1972 (reeditado em 1995).
2 Op. cit.,
p. 12.
3 G. Scholem.
Le grandi correnti delia mística ebraica. Turim, 1993,
p. 307. Edição brasileira: As grandes correntes da mística
judaica. São Paulo, Perspectiva, 1995.
4 E. Bloch.
Ateísmo nel cristianesimo. Milão, 1971, pp. 220-226.
5 V. Mathieu.
Goethe e il suo diavolo custode.
Milão, 2002, p. 192.
6 Op. cit., p. 65.
7 W. Goethe. Faust e Urfaust, 2 vol.
Milão, 1976, vol. I, vv. 340-343, p. 19.
Edição brasileira: Fausto. Belo Horizonte, Itatiaia, 2002.
8 M. Eliade.
Il mito delta reintegrazione. Milão, Jaca Book, 2002,
p. 4.
9 G. W. F.
Hegel. Lezioni sinta filosofia delia religione, 2 vol.
Milão, 1974, vol. II, p. 317.
10 R.
Caillois. Nascita di Lucifero. Milão, 2002, p. 31.
11 M. Praz.
La carne, Ia morte e il diavolo nella letteratura
romantica. Florença, 1999, p. 58. Edição brasileira: A
carne, a morte e o diabo na literatura romântica. Campinas,
Editora da Unicamp, 1996.
12 Id- ibid.
13 C. Baudelaire.
Journaux intimes.
Cit. in Praz, La carne, Ia morte e il diavole nella
letteratura romantica.
Op. cit., p. 55.
14 H. Bloom.
Rovinare le sacre verità. Poesia e fede dalla Bibbia a oggi.
Milão, 1992, p.106.
15 W. Blake.
"Il matrimonio dei Cielo e
dell'Inferno" In.
Selected Poems William Blake.
Turim,
1999, pp. 24-25. Edição brasileira: O matrimonio do céu e
do inferno. O livro de Thel. São Paulo, Iluminuras, 2000.
16 P. B. Shelley.
Difesa delta Poesia.
Cit. in: M. Praz. La carne, Ia morte e il diavolo nella
letteratura romantica.
Op. cit., p. 59.
17 H. Bloom. Rovinare... Op. cit.,
p.105.
18 G. W. F. Hegel.
Lezioni
sinta filosofia delta religione.
Op. cit., vol. II, p. 315-316 e 324, nota.
19 M. Praz.
La carne...
Op. cit., pp. 59-60.
20 Id., ibid., p. 64.
21 Id., ibid., p. 96.
22 Id., ibid., p. 135.
23 Cit. in: Id., ibid., p. 147.
24 Cit. in: Id., ibid., p. 161.
25 Lautréamont. "Lettere". In: Lautréamont.
I canti de Maldoror. Turim, 1989, p. 531.
26 Cit. in: M. Praz. La carne... Op.
cit., p. 199.
27 E. Bloch. Spirito dell'utopia.
Florença, 1980, p. 314.
28 Id., ibid., p. 252.
29 W. Blake.
Il
matrimonio...
Op. cit., pp. 19-20.
30 G. W. F.
Hegel. Lezioni sinta storia delta filosofia, 4 vol.
Florença, 1973, vol. 111 (2), p. 35.
31 Cit. in:
F. Cuniberto. Jacob Böhme. Brescia, 2000, p.119.
32 G. W. F.
Hegel. Lezioni sinta storia delta filosofia. Op. cit.,
vol. 111(2), p. 42.
33 C. G.
Jung. "Septem Sermones ad Mortuos". In: Ricordi, sogni,
riflessioni di C. G. Jung. Milão, 1990, p. 454. Edição
brasileira: Memórias, sonhos e reflexões. Rio de
Janeiro, Nova Fronteira, 2000.
34 ld.,
ibid., pp. 454-455.
35 Id., ibid., p. 456.
36 Id., ibid.
37 M. Buber.
L'eclissi di
Dio.
Milão, 1983, p. 139.
38 Id.,
ibid.
39 C. G.
Jung. Psicologia e religione. In: C. G. Jung. Opere,
vol. 11. Milão, 1984, p. 83. Edição brasileira: Psicologia
e religião. Petrópolis, Vozes, 1995.
40 C. G.
Jung. Saggio d'interpretazione psicologica dei dogma delta
Trieità.
In: C. G.
Jung.
Opere, vol. 11. Op. cit., p. 191. Edição
brasileira: Interpretação psicológica do dogma da Trindade.
Petrópolis, Vozes, 1994.
41 id., ibid., p. 190.
42 C. G. Jung. Prefazione a Z. Weblowsky, "Lucifero
e Prometeo". In: C. G. Jung. Opere, vol. 11. Op. cit., p.
299.
43 C. G. Jung.
Saggio
d'interpretazione psicologica dei dogma delta Trieità. Op. cit.,
p. 171.
44 Id.,
ibid., p.174.
45 H. Hesse.
Demian.
Storia della
giovinezza di Emil Sinclair.
In: H. Hesse.
Peter Camenzind - Demiae. Duo romanzi delta giovinezza.
Roma, 1993, p. 185. Edição brasileira:
Demian. Rio de Janeiro, Record,1997.
46 ld.,
ibid., p. 185. Itálicos nossos.
47 Id., ibid., p. 216.
48 Id., ibid., p. 207.
49
R. Guardini. Diario. Appunti e testi dai 1942 al 1964,
Brescia,1983, p. 245.
50
R. Guardini. Lettere
teologiche
ad un amico.
Milão, 1979, p. 63.
51
E. Zoila. Discesa
all'Ade e resurrezione.
Milão, 2002.
52 G. Bataille. "Frammenti su William
Blake". In: Selected Poems di William Blake.
Op. cit., p. 163.