A
DITADURA DO ÓDIO
Carlos
Ancêde Nougué
“É
assim que a alma peca, quando se aparta e busca fora de Vós
o que não pode encontrar puro e transparente senão regressando
a Vós outra e outra vez. Imitam-Vos perversamente todos os
que se afastam de Vós e contra Vós se levantam. Ainda assim,
imitando-Vos deste modo, mostram que sois o Criador de toda
a natureza, e que, por conseguinte, não há lugar para onde
nos possamos afastar totalmente de Vós. Que amei portanto
naquele roubo, em que imitei o meu Senhor, ainda que criminosa
e perversamente? Tive ao menos o gosto de lutar pela fraude
contra a Vossa lei, já que o não podia pela força, a fim de
fingir, sendo cativo, uma falsa liberdade, praticando impunemente,
por tenebrosa semelhança de onipotência, o que me não era
lícito? Eis-me ‘aquele escravo que, fugindo a seu senhor,
seguiu uma sombra!’ Ó podridão, ó monstro da vida e abismo
da morte! Como pode agradar-me o ilícito sem outro motivo
senão o de me ser proibido?”
SANTO
AGOSTINHO, Confissões, II, 14
“As
idéias do mundo moderno são as idéias cristãs tornadas loucas.”
G.
K. CHESTERTON
Há cerca de dois anos venho batendo numa mesma tecla: O PT
ganhará as próximas eleições presidenciais. Por que o digo
desde então com tanta certeza? Porque via pelas ruas do Rio
de Janeiro, onde residi quase toda a vida, o ódio estampado
na cara e saído da boca da maioria do povo. Cada cenho cerrado,
cada esgar de fúria contra FHC me traduzia, transparente,
a vitória por antecipação de uma revolução lentamente, mui
lentamente gestada: a tortura da razão natural (já nem digo,
obviamente, da Lei do Amor) a partir da ocupação, metódica
e minuciosa, de todo o aparato de formação ideológica da modernidade.
Que
canal de televisão brasileiro, que filme brasileiro, que romance
brasileiro, que revista brasileira, que jornal brasileiro
não contribuiu, em maior ou menor escala, para enraizar o
inconformismo, a mentira, a dissolução dos costumes, a degradação
cultural — em suma, a revolução? A prova? Ponhamo-lo num plural
abundante e substantivo.
1)
No mesmo país em que, como em todo o mundo moderno, o critério
principal (e absolutamente desespiritualizado) de avaliação
de um governo é o econômico, acusa-se, entre babas de furor,
o governo Fernando Henrique Cardoso de ter arruinado a nação
e ter feito crescer inauditamente a miséria. Mas como pode
ser tal se, em meio à queda financeira da Argentina, do México,
do Japão, dos Tigres Asiáticos etc., o Brasil se manteve com
relativa mas grande estabilidade? Como pode ser tal se, em
vez dos parcos dois ovos que a própria classe média não raro
se via constrangida a comprar nos momentos de maior inflação
dos governos anteriores, é patente que não há hoje favelado
(pelo menos) nas grandes cidades que não possa fazer refeições
suficientes, ou que não tenha o seu celular, o seu televisor,
a sua geladeira e até o seu Fusquinha, todas essas coisas
que nos dias de hoje vêm substituir as contas inestimáveis
do Rosário e da Caridade? E como pode ser tal se o mesmo governo
estigmatizado acaba de ser reconhecido pela ONU como o que
mais fez pelo “social” — esse germe da revolução — dentre
os de todo o globo?
2)
E o mais “curioso”: esse mesmo governo contra o qual se espuma
de raiva entre um chope e outro foi incapaz, sob tantos ataques,
de se defender pelo próprio ângulo por onde poderia sair vitorioso
aos olhos do eleitorado. Enigma? Que nada! Mera repetição
do já visto ao longo de toda a história das revoluções: o
governo Fernando Henrique Cardoso é a ante-sala do governo
Lula, assim como o governo Kerenski foi a ante-sala do governo
bolchevique de Lênin e seus assassinos etc. A luta entre Fernando
Henrique e Lula, ou entre o PSDB e o PT e aliados, é em verdade
um como debate interno da esquerda, diferindo os primeiros
por uma espécie de esquizofrenia: gerindo embora a economia
nacional pelos parâmetros do liberalismo econômico, Fernando
Henrique e seu partido nunca deixaram para trás o seu próprio
passado — o passado de formadores intelectuais da chamada
nova esquerda dos 70 — e, como um monstrengo de duas cabeças
medonhas, “investiam” no social enquanto convidavam para o
Banco Central um ex-assessor de George Soros, uma das personagens
capitais da chamada globalização. E que quer dizer aquele
tão gabado “social”? A analfabetização de todo o povo mediante
um “ensino” público, gratuito e obrigatório, em verdade mero
arremedo de educação e autêntico ministério da perversidade
sexual, ideológica e política; o estímulo à revolução no campo
e nas cidades por uma reforma agrária e uma reforma urbana
feitas sob medida para os MSTs de todas as brutalidades e
infâmias; o conduzir à debilitação do próprio governo pelo
impulso às ONGs, essas células — desde já endinheiradas —
de um poder soviético etc.
3)
Dir-se-á, porém, que entre os atuais apoiadores de Lula se
contam notórios conservadores, como José Sarney, Delfim Neto,
Maluf etc., o que desmentiria o ser a vitória do petista simples
conseqüência de uma série de governos de esquerda mais ou
menos radicais. Mas tal não prova senão o que a Doutrina católica
já diz desde sempre: que tais conservadores são, de fato,
liberais, e como tais herdeiros de outra (e antiga) ante-sala
da eleição de Lula — a revolução liberal-burguesa iniciada
com as degolas na Bastilha e com o enclausuramento das pequenas
propriedades camponesas da Inglaterra. Prove-o, exigir-se-me-á.
Respondo, mui tranqüilamente, com os McDonald’s da China comunista
(Alain Perreyfite, um dos papas do liberalismo econômico,
chega a elogiar a China por se ter destacado numas últimas
Olimpíadas!... esquecendo-se porém de citar o pódio a que
ela se alça na modalidade “morte aos fetos e bebês”), ou com
o milk-shake que escorreu pelas bolorentas barbas de
Fidel Castro sob as câmeras de todo o planeta. Mas, insistir-se-á,
que dizer dos liberais no sentido da democracia parlamentar
ou — como se costuma chamar com a soberba de quem come da
Árvore do Bem e do Mal — do Estado de Direito? Também muitos
deles não estão a apoiar Lula neste segundo turno? Mas, retruco
eu, que será essa democracia senão um dos produtos daquelas
revoluções antigas e sobretudo anticatólicas, ou, mais precisamente,
da revolta do mesmo e mal-agradecido Terceiro Estado que se
beneficiara pelo Rei São Luís nos idos da Civilização cristã?
Que será essa democracia senão a negação do poder que se reconhece
outorgado por Deus? Vox populi... Blasfêmia! Esta voz
do povo é a voz do anti-Deus, é a voz do fundo dos infernos,
é a voz do hálito de enxofre. A mesma voz que começou a fazer-se
ouvir, em verdade, desde muito antes da revolução francesa:
desde o amordaçamento do tomismo, desde O Nome da Rosa,
desde as tavernas medievais e seus arrotos, passando, obviamente,
pelo enfermiço da nudez em Botticelli, pela barriga cheia
de rei de um Erasmo de Rotterdam, pelos vômitos com que Lutero
e Calvino expeliram Cristo das suas vísceras.
4)
Mais: o autor do projeto de casamento de homossexuais é o
“conservador” Ricardo Fiúza do mesmo PPB de Maluf!... E, ao
fim e ao cabo, não vimos, em todos os jornais e canais de
televisão, Fernando Henrique Cardoso empunhar a bandeira do
movimento gay? e não foi o próprio Serra quem deu grande
impulso à legalização do aborto? e não fora o emedebista Nelson
Carneiro quem fizera aprovar o divórcio? Muito mais: 14% dos
pais cariocas já aceitam que os filhos fumem maconha em casa!...
muitos deles, por certo, fumando-a com eles tal qual se divide
um tereré ou um chimarrão... Está tudo preparado para o reinado
de Marta Suplicy e sua sexologia e seu adultério orgulhosamente
público; está tudo preparado para que se considere o feto
um tumor — benigno, naturalmente — que se pode extrair em
prol de um corpo “malhado” e lascivo; está tudo preparado
para a adoção de crianças por pederastas (afinal, não é Xuxa
a “Rainha dos baixinhos” e grande amiga de Marcelo Rossi?);
está tudo preparado para a convulsão narcocomunista das FARC
e dos comandos vermelhos, sob os auspícios de um Gabeira em
tanguinha de crochê e de juristas em alma despida de razão.
Mas por que a pedra-de-escândalo, retrucar-me-ão com o dedo
em riste, se todos esses perversos e perversos se alinham
com boa parte dos bispos e sacerdotes no julgar que o inferno
está pelo menos vazio, se é que existe?!...
5)
Há esquecer que certo dia dos 60 disse Roberto Marinho: “Nos
meus comunistas ninguém toca”, enquanto chocava os ovinhos
de onde sairiam serpentes como as novelas de Dias Gomes e
“poemas sujos” como os excrementos de Ferreira Gullar? E há
esquecer que, enquanto venciam a guerrilha urbana e rural,
os governos militares permitiam — sim, permitiam, pois que
de fato em nenhuma outra parte do mundo se viu censura militar
mais branda e complacente — o cinema apopléctico e raivoso
de Glauber Rocha, as bandas e marchas militantes dos Buarques
e Vandrés, a crescente cumplicidade e enlaçamento entre o
Maio de 68 e a Passeata dos Cem Mil — entre o “é proibido
proibir” e o “proíbam-se as proibições de Deus e da lei natural”?
E há esquecer que, sob as próprias botas dos militares, se
esmagaram não só os Genuínos e Lamarcas de todos os Araguaias,
mas também, pela infausta reforma do ensino promovida pelo
então Ministro Jarbas Passarinho, as Humanitas, as
mesmas Humanitas que tinham sido o alicerce da educação
tanto do Império Romano como de toda a Cristandade? E isto
em nome de quê? Do mesmo positivismo que, como o Hades da
inteligência, acabou por inscrever o bizarro Comte na nossa
maçônica bandeira. Resultado? A favelização da arte, a substituição
de Bach pelas baquetas do rock, o emporcalhamento hediondo
dos edifícios e monumentos, a mescla lamacenta de sexo, sangue
e satanismo que invade, hipnoticamente, quase todos os bares,
quase todos os lares, quase todos os corações.
Mas,
então, se assim é, se em verdade o mundo e o Brasil já são
todos como um fim dos tempos, que grande diferença há entre
vencer Lula ou vencer Serra? Há outra saída? Há, sim: a Nova
Aliança, a Lei da Caridade, o autêntico Cristianismo. A vida
de oração. O Rosário e a Missa de sempre. A Estrada Real da
Santa Cruz. Crerei eu em Reconquista? Creio ao menos na salvação
individual para a Beatitude eterna. Mas, insistir-se-á, que
fazer neste segundo turno eleitoral? Voto nulo ou branco?
Se houvesse alguma possibilidade efetiva de Serra vencer,
talvez até se pudesse pensar em votar nele, da mesma maneira
que, caindo de cabeça com alguém na direção de uma rocha,
e se houvesse tempo para tal, lhe deveríamos dizer: “Tente
proteger a testa com a mão”. É de todo verossímil que os cristãos
dos primeiros séculos teriam preferido um imperador pagão
algo condescendente com eles a Nero e suas calúnias e suas
leis de martírio. A vitória de Lula, sem embargo, é inexorável,
e não defendo hoje senão que no mesmo próximo domingo votemos
na salvação da nossa própria alma, pedindo-Lhe ainda e sempre
“perdão para os que não crêem, não adoram, não esperam e não
O amam”.
Não
posso contudo deixar de deplorar, com lágrimas amargas, o
que nos aguarda com o governo Lula: a pior das ditaduras —
a ditadura do ódio elevado à última potência. Do ódio implacável
à criaturinha de Deus que brota já espiritual no ventre da
mulher; do ódio dissoluto ao matrimônio, ao amálgama de carne
e osso dos dois sexos, à fidelidade entre os cônjuges como
a que se dá entre o Esposo celeste e Sua Igreja; do ódio sem
freio à inteligência, à vontade e à liberdade, e à Fé, à Esperança
e à Caridade, dadas por Deus unicamente para que sirvamos
a Sua mesma Santíssima Trindade; do ódio pegajoso ao ser,
ao uno, ao verdadeiro, e ao bem, e ao belo. Ao pulchru,
e ao pulcro. Quê? Estarei eu no “mero” Céu das idéias cristãs?
Seja. Que tal então isto: “Viva Lula, Chávez y Fidel”, cartaz
visto na manifestação promovida em Caracas pelo presidente
venezuelano Hugo Chávez, comunista, contra a oposição, que
marchara dias antes contra o seu governo? E “quem sabe” um
dia não veremos, em meio ao sangue escorrido pelas ruas do
Brasil, um estandarte em homenagem à China dos bebês mortos
em cada sarjeta? Afinal, já não tivemos um Bill Clinton a
passar ao comunismo amarelo informações sigilosas do mesmo
Estado que, após criar Bins Ladens contra o que havia ainda
de católico na Europa, perde o controle sobre eles e se vê
soterrado das suas próprias torres-de-babel?