A
IGREJA E O MUNDO
(Entrevista
de Carlos Ancêde Nougué
a Fernando Luís Barreto de Morais)
1)
Uma curiosidade: Nougué (pronuncia-se fechado, como no francês?)
é seu nome de batismo? Se não, qual o significado da mudança?
R.:
O meu nome inteiro é Carlos Augusto Ancêde Nougué, sendo este
último o nome da família paterna, e de uma pequena aldeia
do Sul da França. Por conseguinte, o é
de Nougué, tônico, pronuncia-se fechado.
2)
Falando em batismo, onde exatamente este se deu? Onde e quando
o senhor nasceu?
R.:
Nasci em 1952, no Rio de Janeiro, e logo me batizou um padre
do Mosteiro de São Bento local.
3)
Poderia contar-nos algo de sua infância? Experiências marcantes,
os primeiros mestres etc. Já se antevia, no menino de ontem,
o homem que viria a ser hoje?
R.:
Em verdade, muito pouco me recordo da infância, e, se algo
no menino de ontem antevia o homem de hoje, é a capacidade
de estudo, e de estudo noturno — desde que leio, sou noctívago;
escrevo, e ouço a grande música, sob o agasalho da noite e
das estrelas. Não por nada, dentre os Ofícios (ou seja, as
diversas Horas canônicas, que se cantam em gregoriano, e em
latim, ao longo do dia), o que mais me fala ao coração são
as Matinas, rezadas às 4 horas.
4)
Que influências, durante a juventude, o levaram à militância
política?
R.:
Evitemos desde já um possível equívoco, de fundo “marxista”:
o que sobretudo
me levou à militância política não foram nenhumas influências
sofridas na juventude, mas o meu próprio pecado da soberba.
Estudante de 9 aos 19 anos do Colégio de São Bento, tornei-me
ateu e comunista aos 16 ou 17 anos pela reincidência no mesmo
pecado de Adão e Eva: escutei o canto do Demônio, e quis ser
como Deus. Comi da Árvore da Ciência do Bem e do Mal, e, acorrentado
doravante ao imanentismo histórico de traço hegeliano, passaram-me
a comer as vísceras da alma os mesmos abutres do Anti-Cristo
a quem eu próprio dera asas. Naturalmente, o meio exerce mais
ou menos influência sobre o indivíduo; mas, em última análise
(ou instância, como diria um marxista), as grandes decisões
tomam-se nos escritórios do espírito. Compreendido pois claramente
isto, posso agora dizer: deixei-me influenciar por Einstein,
o Sofista; e por Darwin, o Soberbo; e por Marx, o Judeucomunossatanista;
e por professores do mesmo Colégio de São Bento: alguns, de
Religião, monges, nos ensinavam não Santo Tomás de Aquino,
o Doutor Angélico e Comum, mas Teilhard de Chardin, o “Doutor
Mundano”, enquanto outros, de História, nos ditavam, por exemplo,
Los Conceptos Elementales
del Materialismo Dialéctico, de Martha Hanecker.
5)
O senhor chegou a mencionar, num e-mail
dirigido a seus alunos, que pertencera a um partido comunista
clandestino durante os anos 70. Qual era esse partido? Quais
eram, então, os seus objetivos?
R.:
Pertenci, desgraçadamente, ao clandestino MEP (Movimento pela
Emancipação do Proletariado), partido de extrema esquerda,
e que teve decisiva participação na fundação e construção
do PT. Naturalmente, o objetivo primeiro do MEP era a instauração
do comunismo planetário; como todos os partidos marxistas,
buscava refundar na terra o paraíso perdido, e isto mediante
a insurreição das massas e a ditadura do proletariado. Diz
Chesterton: “As idéias do mundo moderno são as idéias cristãs
tornadas loucas.”
6)
O senhor chegou a participar de atos terroristas? Foi alguma
vez preso ou torturado?
R.:
Graças a Deus, nunca participei de atos terroristas; o MEP
surgiu posteriormente à derrota dos grupos guerrilheiros pelo
regime militar. E também nunca fui preso nem torturado; consegui
escapar a isso em 1977, quando quase todo o MEP foi preso.
Passei então à clandestinidade pessoal, e tornei-me soldador,
tendo trabalhado em alguns estaleiros e outras fábricas metalúrgicas
até cerca de 1981. Quanto descaminho, quanta miséria!
7)
Qual a avaliação que o senhor faz, na condição de ex-insider, da natureza e atuação da esquerda brasileira durante os “Anos
de Chumbo”? É correto o juízo histórico que hoje celebra os
militantes esquerdistas de então como heróis da resistência
democrática?
R.: Antes de tudo, tais anos deveriam
ter sido ainda mais de chumbo no combate às idéias revolucionárias.
Foi no seio do próprio regime militar, de cunho essencialmente
positivista, que a esquerda começou a tornar-se vitoriosa
no Brasil, graças, por exemplo, à triste reforma do ensino
do Ministro Jarbas Passarinho (fim do curso Clássico, do ensino
do latim etc., e primazia às ciências ditas exatas e ao inglês
comercial); e a uma censura frouxa (quase todos os filmes
esquerdistas, e canções contestatórias, e peças brechtianas
dos anos 60 e 70 vieram então a lume, de um modo ou de outro);
e ao ninho da Rede Globo, onde se nutriram Dias Gomes, Ferreira
Gullar etc. (e as mais diversas ofensas à lei natural) sob
o lema de Roberto Marinho: “Nos meus comunistas ninguém toca”
etc.
Quanto
à atuação da esquerda em todo esse período, foi excelente,
sem dúvida. Do ângulo, naturalmente, do mal.
8)
O senhor foi também fundador da CUT e do PT, não é isso? Em
que circunstâncias se deu o seu desligamento do partido e
da militância política? Isto foi antes ou depois de sua reconversão
ao cristianismo? Como ocorreu essa reconversão? Como o militante
arrependido foi habitar com os monges beneditinos?
R.:
Fui, sim, muito infelizmente, fundador da CUT e do PT, mas
deles me desliguei, como de toda a militância esquerdista,
em 1987, uns quatro anos antes da reconversão ao Cristianismo.
Dera-me então como um cansaço, como um tédio de toda aquela
coisa, cansaço ou tédio certamente devido a uma graça de Cristo.
Ajudou-me a não rejeitá-la um retorno ao antigo interesse
pelas artes do belo, o qual interesse se perdera em meio à
feiúra do mal e do seu serviço. A reconversão mesma só se
deu com o encontro da que seria a minha esposa, Maria Teresa.
Assim como, em altíssima escala, Deus falava a Santo Agostinho
pela boca da sua mãe, Santa Mônica, Ele me falava a mim, na
minha modestíssima escala, pela boca da Teresa. Era católica,
possuía grandíssimas virtudes naturais, e, após longa agonia
por um câncer muito doloroso, morreu piedosamente há dois
anos. Após a sua morte fui habitar num Mosteiro beneditino.
E ter ido para o seio dos beneditinos, para aquele cantinho
do Céu, foi uma forma de honrar, na viuvez, a Cristo e à minha
esposa. Eu já não era somente um arrependido, e nem sequer
um simples reconverso; era já um militante, um soldado do
Senhor dos exércitos.
9)
Há, então, uma incompatibilidade essencial entre cristianismo
e, já nem digo apenas o marxismo stricto
sensu, mas as ideologias esquerdistas de todos os matizes?
R.:
Há incompatibilidade absoluta do Cristianismo não só com os
esquerdismos de todas as cores, mas com todos os sistemas
que se buscam substituir à Civilização cristã, incluído aí
o liberalismo. O comunismo e o liberalismo são, em essência,
seitas anticristãs; são duas cabeças do mesmo monstro nascido
no já remoto século XIII, do ataque de Duns Scott ao tomismo,
e desenvolvido depois, com o Humanismo e o Renascimento. E
Marx é rebento, por um lado, do jacobinismo, do terror, da
guilhotina, da democracia da “liberdade, igualdade e fraternidade”,
e de uma face filosófica sua, o hegelianismo; e, por outro,
da revolução industrial inglesa, da expropriação maliciosa
dos camponeses com o cercamento dos seus campos, da superexploração
fabril de crianças e mulheres (não esquecer que o beato Ozanam
clamou, com real indignação cristã, contra tais abusos, sem
nunca aderir, todavia, ao sindicalismo tradeunionista nem
comunista), e de uma das suas faces teóricas, a obra de Adam
Smith e de Ricardo.
Mas
o comunismo e o liberalismo são apenas duas das vertentes
da ação do mal sobre a terra e na história; como seitas que
são, perfilam-se ao lado de todas as falsas religiões. E,
adiando o desenvolvimento deste tema mas indicando-lhe já
os traços gerais, digo que no segundo semestre deste ano traduzirei
e lançarei um livro em que se mostra, inquestionavelmente,
a aliança estratégica entre os Estados Unidos, a China e o
islã (árabe e turco) contra o que resta da Europa cristã.
O livro é quase definitivo. (Obviamente, tal aliança não implica
que não haja contradições no seu interior, nem que, por exemplo,
os próprios Estados Unidos não percam o controle sobre os
monstros que eles mesmos criam. É como escrevi no texto A
Ditadura do Ódio: “Afinal, já não tivemos um Bill Clinton
a passar ao comunismo amarelo informações sigilosas do mesmo
Estado que, após criar Bins Ladens contra o que há ainda de
católico na Europa, perde o controle sobre eles e se vê soterrado
das suas próprias torres-de-babel?”)
10)
Se é de fato assim, como explicar então o parti
pris pró-Cuba de religiosos como Frei Betto, a teologia
da libertação de Leonardo Boff e a simpatia que a CNBB tem,
historicamente até, para com a esquerda?
R.:
Ora, Frei Betto, Leonardo Boff e alguns dos bispos da CNBB
já não são católicos, mas, desgraçadamente, apóstatas. E ponto
final.
11)
Bom, mas se Deus não é de esquerda, tampouco pode ser de direita,
certo? Sendo assim, o que faz da ruptura comunista um fato,
aos olhos de Deus, intrinsecamente mais abominável que a mera
continuidade capitalista? Não haveria uma perspectiva que
unificasse, do alto, numa única senha explicativa, todo o
desenrolar das disputas políticas a que temos assistido desde
o advento da modernidade?
R.:
Já respondi mais acima a esta questão. Mas remato: tudo o
que se passou, passa e passará na história se resume, por
um lado, à completação do número dos eleitos de Deus e, por
outro, à luta do Demônio, do mundo e da carne contra Cristo
e Sua Esposa. É o que tento mostrar n’O Mistério da História, o curso de milhares de páginas que comecei
há dois meses e que envio por e-mail
aos alunos. Hão porém de me perguntar: Que terá significado,
então, a Guerra Fria, senão uma efetiva luta entre o capitalismo
e o comunismo? Sim, tratou-se de efetiva luta, mas luta entre
irmãos, entre, digamos, “gêmeos dizigóticos”, tal qual a luta
entre o judaísmo e o islã. A história, como acabo de dizer,
tem uma finalidade última, completar o número dos eleitos
de Deus, e um final já profetizado no Apocalipse de São João.
E afirmá-lo é cair já no plano da escatologia (a doutrina
sobre a consumação dos tempos, e sobre os fins últimos do
homem), e portanto do profundo e sagrado mistério da história.
12)
Desde este ponto de vista mais amplo, qual o significado da
vitória petista nas últimas eleições?
R.:
A luta entre os irmãos capitalismo e comunismo está a terminar,
com reconciliação fraterna (o que, insisto, não implica ausência
de contradições, que se podem constatar atualmente, por exemplo,
no caso da guerra ao Iraque). Tal reconciliação se patenteia
pelo elogio e apoio do FMI ao governo de Lula, pelo cumprimento
maçônico entre este e Bush, e também pelo investimento maciço
de todo o mundo capitalista na China dos milhões de bebês
deixados a morrer nas sarjetas (e neste sentido tinha razão
Karl Marx: o capital não tem pátria), a mesma China da pior
das ditaduras e dos inauditos 9% de crescimento anual do PIB.
É este, assim, o significado da vitória petista: é mais um
sinal da grande aliança dos irmãos no mal contra o reino de
Cristo. Nada disso quer dizer que o governo de Lula não se
transforme numa ditadura comunista; poder-se-á, dever-se-á
transformar em tal, sim, mas, mais propriamente, numa ditadura
neocomunista: um Estado forte, totalitário, erguido sobre
megacorporações capitalistas. O “admirável mundo novo de 1984”.
13)
O senhor já afirmou, em comunicado a alunos e subscritores,
que a crise da Igreja é, em grande parte, oriunda da renúncia
do clero em liderar intelectualmente o conjunto da sociedade.
Bom, mas em que medida a crise da Igreja é também a crise
da sociedade? O que justifica, em termos sociais, o imiscuir-se
do clero nas questões temporais? E mais: não teria a Igreja
caído em descrédito justamente em razão de uma mundanização
excessiva, levada a cabo pela contaminação do espírito, da
inteligência contemplativa, com a askholia
da vita activa?
R.:
Vamos por partes.
a)
Antes de tudo, não se trata propriamente de “renúncia” do
clero a liderar intelectualmente a sociedade; se usei algures
esse substantivo, equivoquei-me. Trata-se, isto sim, de incapacidade
objetiva. E deriva
tal incapacidade objetiva de dois fenômenos complementares:
primeiro, a rejeição do mundo à liderança da Igreja; segundo,
a ação interna dos que, pertencendo embora ao corpo da Igreja,
não lhe pertencem à alma, sendo o joio que nasce inevitavelmente
junto ao trigo. Ruíram a Civilização cristã, calaram a Doutrina
Perene, conquanto — diga-se contra certas visões sectárias
que consideram o Medievo uma mítica idade de ouro — de modo
progressivo e muito desigual. Entre aquele remoto século XIII
e o século do nada, como chamava Corção ao século XX, deram-se
muitos esplendores na Cristandade: o Concílio de Trento; o
renascimento da arte cristã; uma vastíssima plêiade de santos
a sucederem-se ao longo dos séculos, incluído o mesmo século
XX, com o Papa São Pio X e o taumaturgo Padre Pio de Pietrelcina;
o ressurgimento do tomismo etc. Em suma: nunca morreu nem
morrerá a Igreja; nunca contra ela prevalecerão as portas
do Inferno. Onde houver dois a confessar e testemunhar a Cristo,
aí estará a Igreja, aí estará a Doutrina Perene, aí estará
o reino dos Céus na terra.
b)
Quem pois recusou a direção intelectual da Igreja foi o mundo,
incluído neste mundo o mundo imiscuído no corpo da Igreja.
E, no mesmo sentido, a crise não é nunca da Igreja; é sempre
da sociedade, do mundo, incluído neste mundo, repito, o mundo
imiscuído no corpo da Igreja. O que sempre padeceu e padecerá
a Igreja não são crises, mas provações, e, porque contra ela
não prevalecerão as portas do Inferno, as mesmas provações,
ainda as mais duras, ainda as sofridas em catacumbas, ainda
as sofridas na mortificação diária, ainda as sofridas em martírios
os mais cruéis e sangrentos, serão sempre palmas da vitória
perene.
c)
Em sentido correlato, não se pode dizer propriamente que a
Igreja caiu em descrédito; o que se passou progressivamente
desde o século XIII foi, inversamente, que o mundo já não
quis dar crédito à Igreja, para dar crédito a si mesmo, à
carne, ao Demônio — incluindo-se nesse mundo, repiso-o sempre,
o mundo imiscuído no corpo da Igreja.
d) A Igreja imiscuir-se nas questões
temporais que lhe competem é um mandado de Deus. É ela quem
deveria ter, sempre, a direção espiritual dos homens e nações,
na qual se incluem a direção propriamente intelectual e a
direção moral. É por isso que, em certa medida, tem a Igreja
de intervir também nas questões temporais, qual faziam os
papas medievais ao, por exemplo, ordenar a reis que deixassem
a concubina, sob pena de excomunhão, ou ao excomungar o Papa
Pio XI todos os comunistas — é que, como não poderia deixar
de ser com as coisas do homem, o qual é um composto de matéria
e de alma espiritual, o temporal está sempre imbricado no
espiritual. E até certa altura da história, com efeito, o
clero esteve no leme desta direção, porque na Igreja é o clero
quem tem especiais graças de estado para tal (ainda que se
tenha de tomar muito cuidado com a expressão “graças de estado”:
só as têm aqueles homens do clero a quem não faltem as virtudes
naturais nem as sobrenaturais; como dizia o Padre Calmel:
“Onde não haja virtudes naturais, não opera a Graça”). Não
que leigos não possam influir decisivamente na direção espiritual
da sociedade; isto ocorre desde os primeiros séculos do Cristianismo.
Enquanto porém a sociedade não tinha rejeitado de todo a direção
da Igreja, e enquanto o mundo não se tinha imiscuído grandemente
no corpo da Igreja, quem foram os mais brilhantes fachos intelectuais
da humanidade? Para citar alguns muitíssimo poucos, Santo
Agostinho, São Jerônimo, Santo Ambrósio, Santo Alberto Magno,
Santo Tomás de Aquino, São João da Cruz, São Francisco de
Sales, todos do clero. Ninguém os consegue superar a eles,
sobretudo a Santo Tomás, que, como diz Louis Jugnet, é sempre
um cume entre dois vales. Foi aliás o Doutor Angélico e Comum
quem solucionou, em síntese admirável — de todo iluminada
pela Revelação, e balizada pela tradição patrística e escolástica
— as principais aporias da filosofia grega, resultantes das
antinomias entre Parmênides e Heráclito e entre Platão e Aristóteles.
Tal é todavia a perenidade e proficuidade espiritual da Igreja,
que ainda no século XX, quando como rarearam os fulgores intelectuais
no clero (embora não possamos nunca esquecer gigantes como,
entre outros, o Padre Garrigou-Lagrange, ou o Padre Calmel,
ou o Cardeal Charles Journet), surgiu uma plêiade esplendorosa
de filósofos e teólogos lei-gos: Gilbert Keith Chesterton,
Hilaire Belloch, Dietrich von Hildebrand, Étienne Gilson,
Gustavo Corção, entre muitos outros, todos, contudo, com uma
grande característica comum: a total submissão ao Magistério
infalível da Igreja.
e)
Quanto à relação entre poder espiritual e poder temporal,
o Magistério (e a prática) da Igreja sempre se calcou em algo
basilar, que se traduz cristalinamente na tese de São Bernardo
de Claraval acerca dos “Dois Gládios”. Logo estaremos as Edições
Santo Tomás traduzindo e publicando estas páginas essenciais
da Cristandade.
f)
Com respeito, por fim, à afirmação da “mundanização excessiva
da Igreja, levada a cabo pela contaminação do espírito, da
inteligência contemplativa, com a askholia
da vita activa”, há que tomar, uma vez mais, muitíssimo cuidado. A Igreja,
conquanto sempre afirmando e exercendo o primado da contemplação,
nunca deixou de ser ativa, e ativa no mundo (mundo entendido
aqui como civilização, ou, por outro ângulo, como o conjunto
dos eleitos), donde as suas “espiritualidades” diversas: por
exemplo, os beneditinos e sua vida predominantemente contemplativa;
os dominicanos e sua vida a um só tempo contemplativa e ativa;
os jesuítas ou os vicentinos e sua vida predominantemente
ativa. O que houve, em verdade, foi a mundanização de muitíssimos
espíritos do corpo da Igreja como
abertura para o mundo que é o aliado da carne e do Demônio.
(Aliás, não confundir a carne — que inclui o pecado sumo da
soberba e o amor-próprio, conquanto também, entre outras,
a concupiscência sensual — com o sexo. A união física entre
o homem e a mulher, como diz Von Hildebrand no livro que acabamos
de lançar [O Amor entre
o Homem e a Mulher], não é um mal tolerado no casamento.
“Há que aprender a ver que a união física”, escreve o Alemão,
“destinada a ser a realização do amor
conjugal e a máxima autodoação recíproca, é, como tal,
algo nobre e um grande mistério, um terreno sagrado de que
nos deveríamos aproximar com profunda reverência e nunca sem
uma sanção específica de Deus, e de que, precisamente por
esta nobreza e por este mistério sagrado — em face do grande
valor que se destina a realizar — todo o abuso é terrível
pecado e contém até algo sacrílego”). Pois bem, muitíssimo
infelizmente, foi o Concílio Vaticano II um grande ápice desta
mundanização, com conseqüências largamente desastrosas.
14)
Em O Jardim das Aflições,
Olavo de Carvalho faz da luta de castas (casta sacerdotal
versus casta aristocrática) o Leitmotiv
por trás de toda a história política do Ocidente, cujo desenlace
se daria numa usurpação do trono de Cristo pelos sacerdotes
de Caesar. Isto em tudo se assemelha à revelação apocalíptica
da entronização da Besta. Num mundo assim constituído, como
poderia o cristão agir, posicionar-se politicamente, sem colaborar,
mesmo que indireta e inconscientemente, com o advento do reinado
da Besta? A impossibilidade de optar, como cristão, entre
o Estado leigo de George Bush e a teocracia fanática de um
Sadam Hussein, não aponta para uma separação radical e inconciliável
entre a atividade política (vita activa) e a vida do espírito (bios theoretikos, vida contemplativa)?
R.:
Considerando-a tal qual ma descreve o senhor, não considero
correta a tese Olavo de Carvalho, pelo seguinte.
a)
Primeiro, porque, ao afirmar que “o Leitmotiv
por trás de toda a história política do Ocidente” é a “luta
de castas”, “cujo desenlace se daria numa usurpação do trono
de Cristo pelos sacerdotes de Caesar”, afirma, implicitamente,
uma grande impropriedade: que a história em que se ergue o
trono de Cristo é apenas a do Ocidente. Grande equívoco teológico,
que provável e naturalmente decorre de outro equívoco, de
fundo: o considerar que há uma como “unidade transcendente
das religiões”, razão por que o trono de Cristo seria meramente
histórico, não se destinando a elevar-se, por exemplo, na
Índia ou nas Arábias. Ora, como nos assevera não só o próprio
Cristo (“Eu sou o caminho, a verdade e a vida”) mas, suposta
esta palavra do Verbo, também a própria lógica (“O que é não
é o que não é", reza o princípio de contradição; em outros
termos: a negação de uma proposição afirmativa verdadeira
será falsa, e vice-versa, porque o contrário do falso é o
verdadeiro), Cristo e Sua Igreja são católicos, ou seja, universais,
e estão presentes supra-historicamente na história desde o
Paraíso — lembremo-nos, por exemplo, do “Façamos o homem à
nossa imagem e semelhança”,
ou seja, à imagem e semelhança da Santíssima Trindade, e lembremo-nos
também, ainda por exemplo, da Árvore da Vida, figura do próprio
Filho de Deus.
b)
Segundo, porque a mesma noção de “luta de castas”, que, creio-o,
se procura substituir à noção marxista de “luta de classes”,
implica duas outras impropriedades: o esquecimento de que
a aristocracia não só já se mostrou submissa ao poder espiritual
da Igreja mas até constituiu, como nobreza, um dos pilares
da Civilização cristã; o esquecimento de que a hierarquia
da Igreja é mais que mera casta: por composta de cristãos
(refiro-me, obviamente, aos eclesiásticos que não se encontram
afastados da alma da Igreja, quer por razões doutrinárias,
quer por falta pessoal de virtudes), a hierarquia da Igreja
é extensão do Cristo mesmo. Na tese de Olavo de Carvalho tal
qual o senhor ma descreve, ao contrário, estará suposto que
o clero cristão tem por pares, por exemplo, o clero brâmane
ou os imãs e aiatolás. Não pode concordar com isso quem, pela
virtude da Fé e pela razão (“Crede
ut intelligas...”), esteja certo de que Cristo é Deus,
e de que Deus é incapaz de contradizer-Se a Si mesmo.
Pois
bem, o Leitmotiv por trás de toda a história do homem é o que já referi acima:
por um lado, a completação do número dos eleitos de Deus;
por outro, a luta do mundo, da carne e do Demônio contra o
Reino de Cristo. Qualquer afirmação que, explícita ou implicitamente,
contrarie esta Verdade não se pode considerar da Doutrina
Perene.
Mas
“como poderia o cristão agir, posicionar-se politicamente,
sem colaborar, mesmo que indireta e inconscientemente, com
o advento do reinado da Besta”? Obviamente, não pode o cristão
aliar-se a nada que contribua para o advento da Besta. Não
foi assim que agiram os cristãos encerrados nas suas sagradas
catacumbas? Não foi assim que agiram os santos que perderam
a vida, o mais das vezes barbaramente, para não acender um
incenso que fosse a falsos deuses? Não foi assim que agiram
os camponeses da Vandéia ante a assassina revolução liberal
francesa? Não foi assim que agiram os Cristeros no México
paracomunista? Não foi assim, afinal, que agiram os egressos
da Action Française
ante a maranha de liberalismo, comunismo e nazismo na
Segunda Guerra Mundial? Sim, foi assim ainda nesta França
rasgada pela luta intestina dos inimigos de Cristo, a mesma
França em que republicanos e comunistas acabariam por condenar
à morte o nobre poeta cristão Robert Brasillach.
Com
respeito a uma “separação radical e inconciliável entre a
atividade política (vita
activa) e a vida do espírito (bios
theoretikos, vida contemplativa)”, repito: embora haja
preeminência da contemplação sobre a ação, esta de modo algum
se pode negar do ângulo verdadeiramente cristão. O Cristianismo
não é um budismo, e o homem não tem por fim último o nirvana,
o nada, o círculo infernal da serpente a morder o próprio
rabo. Conquanto a salvação do homem e o atingimento do seu
fim último — a saber, após a sua ressurreição como corpo glorioso,
a contemplação amorosa e eterna da Face de Deus — não se faça
senão, graciosamente, por Ele mesmo, requerem porém o mérito
da nossa contribuição: como dizia Gustavo Corção, um mero
não arriar as velas, para que as enfune o Sopro do Espírito.
E, para o cristão e a Cristandade, isto implica ação na medida
do necessário; implica intervir nos rumos da civilização;
implica a existência das ordens religiosas ativas; implica
um Carlos Magno, um Rei São Luís, um Presidente García Moreno.
E implica as tropas camponesas da Vandéia, e implica o pujante
exército dos Cristeros.
15)
A idéia de que caberia à autoridade espiritual (ou intelectual)
comandar, desde fora, os desígnios do poder temporal sugere,
como premissa, o primado da contemplação sobre a ação. Com
a modernidade, ou mais precisamente, a partir do advento do
marxismo, a ação instala-se no coração da atividade contemplativa:
o pensar torna-se consubstancial, se não muito posterior,
ao agir. Ou antes, o próprio pensamento é que ganha contornos
de ação: é uma forma de intervir, mudar a sociedade; enquanto
a ação, de forma análoga, adquire status
de portadora de uma consciência, agora coletivizada. Autores
mais contemporâneos, a exemplo de Hannah Arendt, pretendem
uma separação estanque entre a ação e a contemplação, isoladas
em domínios específicos, sem possibilidade de hierarquização.
A contemplação, na esfera privada da consciência, com os olhos
voltados para a eternidade; e a ação, exposta aos olhos e
ouvidos do mundo, encerrada na imortalidade histórica, na
memória. Este ponto de vista tende a aproximar a perspectiva
da verdade com a do domínio político totalitário, como se
todo e qualquer vislumbre da verdade fosse uma ameaça à comunidade
política, tida e havida como guardiã da liberdade. Que tem
o senhor a dizer a esse respeito? A revelação da verdade não
coincide, de fato, com o fim dos tempos?
R.:
Já respondi, acima, a grande parte do que pergunta ou suscita
esta longa questão. Gostaria, no entanto, antes de mais nada,
de insistir num ponto: não é fato que somente “a partir do
advento do marxismo” “o pensar se torna consubstancial, se
não muito posterior, ao agir”. Isso tem raízes remotas, e
começa efetivamente antes do marxismo. Remontemos a Duns Scott
e seu pietismo. Se, como poderia dizer ele, Deus pudesse ter
feito do homem um ser mau, é porque Deus seria capaz de maldade,
o que é admitir, desde logo, uma absurdidade. Ora, se se pode
admitir uma absurdidade ou, o que é dizer o mesmo, uma falsidade,
o inteligir, cuja função precípua é traduzir a verdade do
real e não admitir o absurdo ou falso, perde razão de ser,
assim como a contemplação, que é requerida unicamente pelo
inteligir. Avancemos, agora, até Guilherme de Ockham e seu
nominalismo. Se não há universais mas tão-só singulares, ou
seja, se todas as garrafas não são antes de tudo garrafas
mas multidão de coisas individuais a que, por qualquer semelhança,
a nossa inteligência achou mais cômodo chamar garrafas, é
porque a inteligência, além de perder a função precípua de
compreender a verdade, é destituída de instrumental para conhecer
a realidade, cingindo-se antes a fórmulas de acomodação. Pois
bem, passando agora, sem nos determos, pelo inaudito afã de
ação que tomou os homens da Renascença, e por Descartes e
Berkeley e Hume e tantos outros demolidores da mais alta instância
da alma humana, chegamos, conseqüentemente, ao primado da
ação econômica com a revolução industrial inglesa, e ao primado
da ação política com as societés
de pensée e a revolução liberal francesa. Ao primado,
pois, da ação tout court, de que o primado da ação marxista não é senão um corolário.
Por
outro lado, diz a questão: “Este ponto de vista tende a aproximar
a perspectiva da verdade com a do domínio político totalitário,
como se todo e qualquer vislumbre da verdade fosse uma ameaça
à comunidade política, tida e havida como guardiã da liberdade.
Que tem o senhor a dizer a esse respeito? A revelação da verdade
não coincide, de fato, com o fim dos tempos?” Vamos por partes.
a)
A liberdade, como ensina Santo Tomás de Aquino e como já sabiam,
ainda que incompletamente, cumes do pensamento pagão como
Platão, Aristóteles e Cícero, não é, nem de longe, o que largamente
se considera já desde tantos séculos. Em verdade, temos antes
de tudo a inteligência, para conhecer o Bem; e temos em seguida
a vontade, para querer o Bem, e o livre-arbítrio, para, conseqüentemente,
não escolher o mal, o que, todavia, implica a possibilidade
de escolhê-lo. Mas Guilherme de Ockham, conseqüentemente
com seu nominalismo e pois falsamente, inverteu esta escala,
tornando o livre-arbítrio anterior à inteligência. E assim
temos que Deus, caso ainda se creia n’Ele, teria criado o
homem sem a capacidade de, conhecendo o Bem, livremente não
escolher o mal; teria criado um homem que, sem ter por primeira
instância do espírito a inteligência para conhecer o Bem,
teria desde logo a liberdade para escolher, indiferentemente,
entre o Bem e o mal, ou seja: seria um deus capaz de absurdo,
seria um deus demiurgo, seria um não-Deus. Caso contudo já
não se creia em nenhuma divindade, temos que o próprio Absurdo
é quem teria criado o homem, donde, no século XX, a fabulação
de Franz Kafka, o teatro de Samuel Beckett e tantas outras
formas artísticas de expressar, mais ou menos brilhantemente,
o vazio de Deus (e do Bem) em que se encontra grande parte
da humanidade após Lhe ter decretado a morte.
b) A verdade só pode ser sentida como ameaça pela
comunidade política porque esta é guardiã não da verdadeira
liberdade, mas da falsa liberdade que brota do equívoco nominalista.
c) A revelação da verdade não
coincide com o fim dos tempos simplesmente porque, por um
ângulo, Deus mesmo já revelou a verdade aos nossos primeiros
pais, e ao povo eleito, e à Cristandade, e porque, por outro
ângulo, nos deu a inteligência para inteligi-la. Quem julga
que a revelação da verdade coincide com o fim dos tempos não
o pode fazer senão em nome de um falso ecumenismo: ou o ecumenismo
de fulcro hegeliano, que afirma estar a Igreja ainda em construção,
não se concluindo senão quando conjugar todas as confissões
religiosas, ou o ecumenismo de fulcro guénoniano, que afirma
terem todas as confissões religiosas uma unidade transcendente,
não se resolvendo ambos estes falsos ecumenismos, obviamente,
senão no fim dos tempos. Ante tudo isso, e a esta altura da
entrevista, basta-me reafirmar o primado daquela palavra do
Verbo e a perenidade do princípio de contradição. Poder-se-ia
ainda brandir, aqui, a palavra de Cristo “Ninguém vai ao Pai
senão por mim”, e argüir, por conseguinte, para efeito de
demonstração, o princípio da bivalência, segundo o qual uma
proposição ou é verdadeira ou é falsa, ou até o mesmo princípio
do terceiro excluído, segundo o qual uma proposição ou é afirmativa
ou é negativa, não havendo meio-termo; mas deixemo-lo para
outra oportunidade.