A
exemplo de Santo Tomás e seguindo-o, nossas considerações
serão estabelecidas
sobre a fé, sobre a Revelação, e mesmo eventualmente sobre
argumentos
de razão. "Justus
ex fide vivit”:
o
justo, o santo vive da fé. Porque a
fé traz em si, como que em germe, a visão beatífica, e nós
fomos criados para esse fim. A fé ilumina nossa inteligência,
conferindo-lhe uma sabedoria incomparável.
O
primeiro assunto apresentado para estudo na Suma Teológica
é Deus. É também o primeiro
assunto da oração de Nosso Senhor: “Pai nosso que estais
no céu”. É a primeira afirmação do Credo: “Creio em Deus...”,
é o primeiro mandamento:
“Adorarás a um só Deus”.
Deus
é o primeiro bem do homem e é o último, sua origem e seu fim,
sua felicidade
de todos os dias e da eternidade. Desde os seus primeiros
momentos de consciência, a alma da criança deve-se voltar
para Deus e desabrochar
banhada pelo grande sol de Deus, “qui
illuminat
omnem hominem venientem
in
hunc
mundum”: “que
ilumina todo homem que vem a este mundo”
(Jo. 1, 9).
Bem-aventurados
os anjos que guardaram inscrito em seus corações “
quis ut Deus.”,
“quem
é como Deus”, e que perseveraram
na provação.
Bem-aventurada
a Virgem Maria, imaculada em sua Conceição, que voltou para
sempre sua alma a Deus, desde a mais tenra infância.
Bem-aventurada
a alma de Nosso Senhor, iluminada pela visão beatífica desde
o instante da Criação.
Por
que esta lentidão, por que este atraso, por que esta cegueira
no conhecimento do amor de Deus, mesmo em muitos batizados?...
Esta
constatação suscita lamentações de Nosso Senhor nos Salmos,
nos impropérios da Sexta-feira Santa, no primeiro capítulo
de São João. Pode-se dizer que a sua agonia no Jardim das
Oliveiras era a comprovação desse ateísmo... O amor não é
amado: “Non requirunt Deum”... “Non receperunt”,
“Não procuram a Deus”, “Não O receberam”.
Este
drama nos deixará indiferentes? Esta realidade da ignorância
sobre Deus nos excede. O que podemos fazer? Toda a sociedade
moderna leva a esta ignorância. Mas não haveria muito dessa
ignorância até em nós mesmos? Fazemos um esforço para meditar
em Deus, para nos aproximar desse mistério insondável do “Alpha
et Omega”, do “Principium et Finis”, do Mistério
do amor manifestado no Verbo Encarnado?
Santo
Tomás nos convida a conhecer melhor a Deus em sua unidade,
em sua Trindade, em suas obras.
Essa
contemplação da Trindade bem-aventurada, que fará nossa felicidade
eterna, não poderá, na fé do Espírito Santo, dar-nos um esboço,
um eflúvio dessa felicidade?
Eis,
abaixo, alguns estudos que podem ajudar a completar ou explicar
o ensinamento da Suma Teológica de Santo Tomás:
—
O Mistério da Santíssima Trindade, de Pe. Emmanuel;
—
Jesus Cristo Ideal do Monge, cap. I, de Dom Marmion;
—
Les Perfections Divines, do Pe. Garrigou-Lagrange;
—
Commentaires de la Somme Théologique, Pe. Pegues e
Pe. Hugon;
—
Le
Noms Divins,do
Pe. Lessius.
Não
se trata de fazer um estudo teológico, mas de aproximar-nos
um pouco da grande realidade de Deus e, diante de seus atributos
e suas perfeições infinitas, nos lançarmos em adoração, em
humildade, em oblação ardente imitando a Jesus Cristo e à
Virgem Maria.
Um
pouco mais de conhecimento da infinidade de Deus, de sua infinita
caridade e misericórdia deveria fazer-nos progredir na Caridade
de Deus, afastar-nos do pecado e confirmar-nos na virtude;
aliás, é este o caminho que seguiram as almas santas, sob
a influência do Espírito de Jesus.
A
EXISTÊNCIA DE DEUS
A
fé, que é a ciência mais certa a que nos referimos, ensina-nos
a existência de Deus: “Credo in unum Deum Patrem Omnipotentem,
creatorem coeli et terrae, visibilium et invisibilium”.
Ela
nos ensina que Deus é espírito: “Deus spiritu est”,
Nosso Senhor o ensinou à Samaritana. É, pois, um Espírito
todo-poderoso que tudo criou.
Houve
um momento em que o mundo não existia, em que somente Deus
existia eternamente, em sua santidade e em sua felicidade,
perfeita e infinita, não tendo nenhuma necessidade de criar.
No princípio de sua oração sacerdotal, Jesus faz alusão a
esta época: “E agora, Pai, glorificar-me-ei com aquela glória
que eu tinha junto de ti, antes que houvesse mundo” (Jo XVII,
5).
A
fé ensina-nos que a razão pode chegar à conclusão da existência
de Deus, e São Pedro em sua primeira Epístola (I Pe I, 18)
repreende os homens com veemência por não haverem conhecido
o verdadeiro Deus que se manifesta em suas obras.
Realmente,
tudo o que é, tudo o que somos proclama a existência de Deus
e canta suas perfeições divinas. Todo o Antigo Testamento
e, particularmente, os Salmos e os Livros Sapienciais cantam
a glória do Criador. É por isso que na oração litúrgica e
sacerdotal os Salmos têm um lugar primordial.
É
bom meditar sobre a criação “ex nihilo sui et subjecti”,
feita do nada, pela simples decisão do Criador; “qui putas
se esse aliquid, cum nihil sit, ipse seducit: se alguém
julga ser alguma coisa, não sendo nada, ilude-se a si mesmo
(Gal VI, 5).
Quanto
mais nos aprofundamos nessa realidade, mais ficamos espantados
com a onipotência de Deus e com nosso nada, com a necessidade
de toda e qualquer criatura ser constantemente sustentada
nesta existência, sob pena de desaparecer, de voltar ao nada.
É isso o que nos ensinam tanto a fé como a filosofia.
Essa
meditação e essa constatação deveriam bastar para nos lançar
humildemente a uma adoração profunda, numa atitude imóvel
semelhante à imobilidade do próprio Deus. Deveríamos ter uma
confiança sem limites naquele que é nosso Tudo e que decidiu
criar-nos e salvar-nos.
Com
que devoção e sinceridade deveríamos todas as manhãs, no começo
das Matinas, recitar o Salmo XCIV: “Vinde, alegremo-nos...
Vinde, adoremos... Seu é o mar, pois Ele o fez, e a terra
firme que suas mãos formaram, vinde adoremos e prosternemo-nos
diante de Deus, choremos diante do Senhor que nos criou, porque
Ele é o Senhor nosso Deus, e nós somos seu povo e as ovelhas
que Ele pastoreia”.
Como
não agradecer à Igreja, que põe suas palavras em nossos lábios
para exprimir os mais profundos sentimentos de nossas almas
de criaturas!
Se
a criação é um grande mistério, é que Deus é para nós o grande
Mistério e o permanecerá eternamente na visão beatífica. “Jamais
alguém viu a Deus, senão aquele que vem de Deus”: somente
o Verbo e o Espírito Santo vêm Deus, sendo de Deus e um só
Deus com o Pai (Jo VI, 46).
Abordar
os atributos e perfeições de Deus, realidade espiritual que
abrange tudo, que vivifica tudo, que sustenta tudo na existência,
só poderá aumentar o Mistério divino, para nossa maior satisfação,
edificação e santificação.
Santo
Tomás diz: “Quanto mais conhecermos perfeitamente a Deus
aqui em baixo, melhor compreenderemos que Ele ultrapassa tudo
o que a inteligência compreende” (II-II, 8, 3).
Vindo
a fé em socorro da razão para nos convencer da existência
de Deus, e abrindo-nos horizontes maravilhosos sobre a intimidade
de Deus pela Revelação e, sobretudo, pela Encarnação do Verbo
divino, devemos interrogá-la para saber se podemos dar a Deus
um nome que será próprio de Deus e nos ajudará a melhor conhecê-lo.
Ora,
é precisamente o que Deus fez, tanto no Antigo Testamento
como no novo. Disse Moisés: “Eu lhes direi, o Deus de vossos
pais me enviou a vós. Se eles me perguntarem qual é o seu
nome, que lhes responderei? E diz Deus a Moisés: Eu sou Aquele
que sou. E ele continua: É assim que responderá aos filhos
de Israel: Aquele que é me envia a vós” (Ex III, 13-14);
e assim também Nosso Senhor aos judeus que lhes dizem: “Vós
não tendes ainda cinqüenta anos e vistes Abraão? Jesus lhes
respondeu: Em verdade, em verdade vos digo, antes que Abraão
fosse, eu sou” (Jo VIII, 5-9).
Nunca
serão suficientemente admiradas essas respostas luminosas
que correspondem, aliás, às conclusões de nossa razão. “Deus
é”, Ele é “ens a se”, o ser por Ele mesmo; todos os
outros seres são “ab alio”, não têm sua razão de ser
por eles mesmos.
Essas
afirmações simples são uma fonte de meditação e de santificação
interminável. Seja o olhar sobre Deus que termina no infinito,
seja a constatação dos laços da criatura para com o Criador,
ou a visão do nada da criatura, estamos diante do que há de
mais verdadeiro, de mais profundo e de mais misterioso em
Deus e em nós.
Monsenhor
Marcel Lefebvre