BEM-AVENTURADA
GIANNA BERETTA MOLLA
(um
modelo de doação da própria vida)
Em
uma época em que cada vez mais o valor da vida é banalizado
e se difunde a "cultura da morte", Gianna Beretta
Molla é uma luz que brilha nas trevas.
Esta
médica italiana, casada e mãe de família, tornou-se célebre
por sua decisão heróica de dar a vida pela quarta filhinha,
que nasceu em 21 de abril de 1962. Morreu uma semana depois,
no dia 28 de abril. Ainda não foi canonizada (declarada
santa), mas foi beatificada (declarada bem-aventurada) pelo
Papa João Paulo II. Sua filha, Gianna Emanuela, é hoje médica
como a mãe.
Os
heróis não se fazem de uma hora para a outra. Sua última
decisão heróica foi preparada por uma vida cheia de amor
a Deus e ao próximo. Gianna foi sempre um modelo de religiosidade.
Nasceu em Magenta, Itália, em 1922, décima filha de um casal
exemplar, Maria Micheli e Alberto Beretta. Amava a Santíssima
Virgem com ternura filial. Trazia sempre no bolso ou na
bolsa o Terço, que recitava todos os dias. Seu irmão, Padre
Alberto, diz não recordar um só dia em que Gianna não se
tenha aproximado da Eucaristia. A jovem tinha um ardor missionário.
Desejava viajar para o Brasil e auxiliar o irmão padre,
fundador de um hospital em Grajaú, no Maranhão. Deus, porém,
tinha reservado outros planos para ela.
Para
conhecermos a alma da bem-aventurada, vejamos alguns de
seus propósitos espirituais:
- 1º
Faço o santo propósito de fazer tudo por Jesus. Todas
as minhas ações, todos os meus desgostos ofereço-os
todos a Jesus.
- 2º
Faço o propósito de, para servir a Deus, não querer
ir mais ao cinema, se não souber se ele se pode ver,
se é modesto e não escandaloso e imoral.
- 3º
Prefiro morrer a cometer um pecado mortal.
- 4º
Quero temer o pecado mortal como se fosse uma serpente,
e repito de novo: antes morrer mil vezes do que ofender
o Senhor.
Uma
de suas orações lembra-nos a obediência e a humildade de
Nossa Senhora:
"Ó meu Jesus, prometo sujeitar-me a tudo o que permitires
que me suceda. Faz-me só conhecer a Tua Vontade".
Em
1942 ocorreram fatos marcantes na vida de Gianna. Em 29
de abril morreu sua mãe. Em junho, Gianna recebeu o diploma
do liceu clássico. Em 10 de setembro morreu o pai. Tudo
isso Gianna viveu com a idade de apenas 19 anos.
No
mesmo ano os irmãos Beretta voltaram definitivamente para
Magenta, cidade natal de Gianna. Alguns já tinham se formado.
Fernando era médico; Francisco, engenheiro civil; Henrique
( o futuro Padre Alberto) formou-se em medicina; Zita formou-se
em farmácia; Giuseppe estudava engenharia civil e esperava
o sacerdócio. Virgínia tinha estudado medicina e esperava
consagrar-se a Deus na vida religiosa.
Gianna
ingressou na Universidade de Milão e de Pavia. Formou-se
em medicina e cirurgia em 1949. Especializou-se em pediatria,
dada a sua paixão de servir as crianças.
E
agora? Que fazer da sua vida? Consagrar-se a Deus na vida
religiosa e ajudar seu irmão, Pe Alberto, que trabalhava
em Grajaú - Maranhão? Este era o seu sonho. Preparou-se
para o vôo Itália - Brasil. Mas uma misteriosa reviravolta
colocou-a em outro caminho.
Deus
lhe havia preparado um esposo. Sua vocação seria a de esposa
e mãe. Encontrou um jovem engenheiro, honesto, trabalhador,
piedoso e apostólico. Seu nome era Pietro Molla. Seguindo
os conselhos de seu diretor espiritual e o parecer de seus
parentes, Gianna convenceu-se de que sua vocação era a do
matrimônio. Casou-se em 24 de setembro de 1955. Tinha então
32 anos.
Pietro
e Gianna desde o primeiro dia de seu casamento, colocaram
Cristo como centro de sua união, vivendo intensamente o
amor cristão. Os filhos eram esperados com muito amor e
carinho.
Vejamos
este lindo pensamento de Gianna: "Toda vocação é
vocação à maternidade: material, espiritual, moral, porque
Deus nos deu o instinto da vida. O sacerdote é pai; as irmãs
são mães, mães das almas. Preparar-se para a própria vocação,
preparar-se para ser doador da vida... saber o que é o grande
sacramento do Matrimônio".
Quando
Gianna se casou com Pietro em 1955, esperou com ansiedade
que Deus lhes desse filhos. Como demorasse a engravidar,
Gianna fez novenas durante três meses até obter a suspirada
graça. Seu primeiro filho nasceu no ano seguinte ao casamento,
em 1956. Chamou-se Pierluigi. Em uma ocasião disse a seu
amado esposo: "Como és querido quando tens no braço
o teu homenzinho e o fazes sorrir!"
Mesmo
casada, Gianna continuou suas funções de médica. Para ela
servir a Cristo na pessoa do irmão doente era uma necessidade.
Seu consultório em Mesero foi logo transformado num lugar
de afeto e amor. Suas palavras confortavam, animavam, cicatrizavam.
Era a mulher que passava fazendo o bem. Muitas vezes trabalhava
sem nenhuma recompensa material. Conforme o testemunho de
uma de suas auxiliares, Gianna atendia, prontamente, mesmo
chamadas à noite, até no último mês de gravidez. Se o doente
era pobre, Gianna, além da visita gratuita, dava-lhes os
remédios ou o dinheiro. Só saía do consultório depois de
ter atendido a última consulta. Exortava os doentes a terem
uma confiança ilimitada em Deus e na Santíssima Virgem.
Uma pessoa contemporânea de Gianna conta como ela, durante
um mês inteiro, apesar do frio e do nevoeiro, vinha todas
as noites, em uma considerável distância, buscar um litro
de leite para uma religiosa doente.
Em
1957 Gianna alegrou-se quando percebeu que novamente estava
grávida. Veja o que ela escreveu a seu esposo:
"O
Senhor abençoou, novamente o nosso amor, dando-nos outro
menino. Sinto-me feliz e, com o auxílio da Mãe Celeste e
contigo perto, contigo que és tão bom, compreensivo, afetuoso,
já não me causam medo os sofrimentos da nova maternidade.
Muito obrigada, Pietro, pelas tuas orações. Nossa Senhora
ouvir-te-á, de certeza, e teremos assim outro belo menino,
como o nosso Pierluigi".
A
gravidez não foi fácil. Seu pés começavam a inchar. Sentia
vômitos e fortes dores de cabeça. Deus à luz em 11 de novembro.
Era uma menina. Deu-lhe o nome de Maria Zita. Carinhosamente
chamavam-na Mariolina.
Em
1959 Gianna já esperava o nascimento de seu terceiro filho.
Seu marido, por força da profissão de engenheiro, estava
nos Estados Unidos. No dia 24 de maio ela escrevia:
"Hoje
começou o nono mês e canso-me sozinha, assim tão sozinha...
Que pensamento , porém... confio em Nossa Senhora e estou
certa que também desta vez Ela me ajudará. São muitas as
orações do meu caríssimo e amantíssimo Pietro".
No
dia 15 de junho Gianna teve que ser internada, por uma intoxicação.
Tinha dores fortíssimas, contrações espasmódicas, febre,
vômitos. Corria risco de perder seu filho, o que a deixava
aterrorizada. A crise passou e seu Pietro voltou à Itália.
Esperava ver seu filho já recém-nascido. Porém, os nove
meses se completaram e Gianna não deu à luz. A criança só
foi nascer no dia 15 de julho, com quase um mês de atraso.
Era uma menina. Recebeu o nome de Laura.
Diz-nos
Pietro Molla, o esposo da bem-aventurada: "Em cada
expectativa, quanta oração, quanta confiança na Providência,
quanta fortaleza nos sofrimentos! Em cada nascimento, que
hino de ação de graças ao Senhor!"
Gianna
era ardorosa defensora da vida, sobretudo das crianças,
nascituras ou já nascidas. Defendia corajosamente o direito
de a criança nascer. Dizia: "O médico não se deve
intrometer... O direito à vida da criança é igual ao direito
à vida da mãe. O médico não pode decidir. É pecado matar
no seio materno!.."
A
quarta e a quinta gravidez de Gianna terminaram em aborto
espontâneo no segundo mês, sem explicação aparente.
Em
1961 Gianna se vê grávida pela sexta vez. Como médica, sabia
muito bem as complicações e os riscos da nova gravidez.
Mas isto de modo algum diminuiu o amor por este filho, amado
e desejado como os outros.
Um
enorme tumor tomara conta de seu útero. Havia necessidade
de extirpá-lo. A cirurgia proposta para o caso era a histerectomia
(remoção do útero). O objetivo da cirurgia não era matar
a criança, mas sim retirar o órgão canceroso onde, por acaso,
estava a criança. Aliás, esta cirurgia deveria ser feita
mesmo se Gianna não estivesse grávida. A morte da criança
não era querida como fim nem como meio para
salvar a mãe. Era apenas um segundo efeito da cirurgia.
Fazer a operação, neste caso, não seria um pecado. Mas Gianna,
livre e heroicamente recusou-se. Dizia ela: "a mãe
dá a vida pelo filho".
Depois
de enormes sofrimentos, no dia 21 de abril de 1962, o cirurgião
fez uma cesariana e retirou do ventre de Gianna uma criança
de quatro quilos e meio. Era uma menina! Seu pai lhe daria
no batismo o nome de Gianna Emanuela. "Gianna"
em homenagem à mãe. "Emanuela", que quer dizer
"Deus conosco", para louvar a presença de Deus
entre os homens.
Gianna
tanto pedira, tanto desejara aquela criança para o enriquecimento
do seu lar, de sua família... Agora não a pode possuir.
Tem que deixá-la... como a árvore que produz o fruto mas
não tem o direito de comê-lo, assim esta mãe sabe que não
poderá gozar da presença de Emanuela.
Ela
revela para sua irmã missionária, que acabara de chegar
da longínqua Índia, Irmã Madre Virgínia:
"Finalmente
estás aqui! Se soubesses, Ginia, quanto se sofre por ter
de morrer quando se deixam os meninos todos pequeninos..."
No
dia 25 de abril, Gianna faz a seguinte confidência a seu
esposo:
"Pietro,
agora estou curada. Pietro, estava já no além e se soubesse
o que eu vi... Um dia dir-te-ei. Mas como éramos demasiado
felizes, estávamos muito bem, com nossos meninos maravilhosos,
cheios de saúde e de graça, com todas as bênçãos do céu,
mandaram-me cá abaixo para sofrer ainda, porque não é justo
apresentar-nos ao Senhor sem sofrimentos".
"Desde
aquele momento - diz Pietro - estou certo, Gianna
nunca cessou, nos seus sofrimentos, nas suas agonias, o
seu colóquio com o Senhor e a sua comunicação com o Céu.
Já não desejava que a acariciasse e a beijasse. Já pertencia
ao Céu".
Morreu
no dia 28 de abril de 1962, uma semana depois de dar à luz
sua última filha.
Em
1972 foi iniciada a causa de beatificação de Gianna Beretta
Molla. Em 1980, no dia do aniversário de sua morte, o Arcebispo
de Milão decretou a introdução de sua causa.
Em
1992, o Papa João Paulo II reconheceu um milagre acontecido
com Lúcia Silva Cirilo em Grajaú - Maranhão - por intercessão
de Gianna.
No
dia 24 de abril de 1994 o Santo Padre declarou Gianna bem-aventurada.
Esta cerimônia, chamada beatificação, é o último
degrau antes da canonização.
No
dia 4 de outubro de 1997, no 2º Encontro Mundial do Papa
com as famílias, Gianna Emanuela, que hoje é médica como
a mãe, estava no Rio de Janeiro, no estádio do Maracanã,
na presença do Santo Padre e de 200.000 pessoas. Elevou
uma oração a sua mãe, a Bem-aventurada Gianna Beretta Molla,
agradecendo-lhe por lhe ter dado a vida duas vezes: pela
geração e pelo martírio. O momento foi emocionante.
Esperamos
agora que ela seja canonizada, isto é, declarada santa,
para maior glória de Deus, Autor e Senhor da Vida!
Anápolis,
26 de agosto de 2001
Pe.
Luiz Carlos Lodi da Cruz
Presidente do Pró-Vida de Anápolis