EM
TORNO DO CONCEITO DE EVOLUÇÃO
Juan
Carlos Ossandón Valdés
O original deste texto foi publicado em Espanhol na
revista Philosophica, de Santiago do Chile, e constou
de um Suplemento Doutrinário do número 50 da revista Iesus
Christus.
Introdução
Em
um artigo de divulgação, um cientista norte-americano nos
apresentou o que podemos chamar de “a versão popular da evolução”:
Consideramos
atualmente a evolução como um processo contínuo. Os elementos
evoluem a partir do Hidrogênio: surgem moléculas inorgânicas
e orgânicas. Estas últimas reagem entre si para produzir sistemas
do tipo do DNA; sistemas do tipo de vírus evoluem em direção
a formas celulares e estas evoluem formando plantas e animais
pluricelulares. Finalmente, aparece o homem. (G. W. Beadle,
Saturday Review, 14 de novembro de 1959 – ano do centenário
da publicação de A Origem das Espécies de Charles Darwin
– citado por Raymond J. Nogar, “La evolución y la filosofia
cristiana”, tr. I.
Antich, Herder, Barcelona, 1967, p. 243).
Esta
visão popular sustenta, além disso, que tudo está cientificamente
demonstrado, que é um fato real e não uma mera hipótese, pelo
que não cabe a discussão a não ser em nível de detalhe referente
aos mecanismos que comandam o processo, às datas em que aparecem
os animais e vegetais, e outros pormenores que logo serão
elucidados.
Porém
parece que os cientistas desejam algo mais, como assevera
Teilhard de Chardin:
A evolução
é uma teoria, um sistema, ou uma hipótese? É muito mais do
que tudo isso. É uma condição geral a que devem obedecer todas
as teorias, todas as hipóteses, todos os sistemas; uma condição
que eles devem satisfazer doravante para que possam ser levados
em consideração e para que possam ser corretos. (El fenómeno
humano, citado por Nogar, op. cit., p. 245).
Desta
forma, a evolução abandona o mundo da ciência no qual nasceu,
e invade o mundo da lógica. E nele atinge a esperada posição
que tinha o princípio da contradição na lógica aristotélica,
que até então ninguém havia posto em discussão. Entretanto,
com tudo isto não se disse tudo ainda. Em 1959 reuniram-se
50 renomados cientistas em Chicago para celebrar o centenário
da publicação de A Origem das Espécies de Charles Darwin.
Julian Huxley esteve presente a essa magna assembléia que
reuniu a nata da sociedade científica contemporânea, e deu
a última palavra em matéria de exaltação à evolução:
No tipo
de pensamento referente à evolução não há lugar para seres
sobrenaturais (espirituais) capazes de afetar o curso dos
acontecimentos humanos, e nem há necessidade deles. A Terra
não foi criada. Foi formada por evolução. O corpo humano,
a mente, a alma, e tudo o que surgiu, incluindo as leis, a
moral, as religiões, os deuses, etc., é inteiramente o resultado
da evolução mediante seleção natural.” (Evolution after
Darwin, citado por Nogar, op. cit., p. 246).
J.
C. Mansfiel solicitou, ainda, que os estudantes de nível médio
fossem também embebidos do pensamento evolucionista, de tal
modo que se acostumassem a pensar tudo em termos de processo
e não de situação estática. (Citado por Nogar, op.
cit., p. 244).
Assistimos,
pois, ao triunfo de Heráclito. O Padre Raymond Nogar, O. P.,
fervoroso partidário da evolução, de quem retiramos estas
notas, não se exime de fazer ver a influência, às vezes decisiva,
do pensamento evolucionista na filosofia contemporânea, especialmente
no historicismo, no marxismo, e no existencialismo. Podemos
dizer, pois, que o pensamento humano destes dois últimos séculos
está profundamente marcado pela doutrina da evolução.
Entretanto,
E. Gilson, em seu recente estudo sobre a biologia à luz da
filosofia, nos adverte:
As palavras
têm a sua importância. A palavra “Evolução” prestou sobretudo
o serviço de ocultar uma idéia. (De Aristóteles a Darwin
e vice-versa, in A. Clavería, Eunsa, 2ª ed., Pamplona,
1967).
Parece
que estamos sonhando! Um dos maiores filósofos do século XX,
um dos maiores historiadores do pensamento filosófico, chegou
à conclusão de que existe uma palavra, “evolução”, mas não
existe a idéia correspondente! E essa ausência de idéia é
a chave do pensamento contemporâneo! Semelhante desastre nunca
haviam presenciado os séculos!
Raymond
Nogar, O. P., confessa que a evolução, ao sair do campo biológico,
onde nasceu, perdeu seu caráter de conceito unívoco para converter-se
em um conceito equívoco; em outras palavras, o termo “evolução”
não representa uma idéia definida, mas sim uma multidão de
idéias. Vale dizer, este partidário da evolução biológica
reconhece o mesmo fato que Gilson denunciou com tanto vigor.
Creio,
portanto, que é conveniente assumir a tarefa de esclarecer
este conceito, para assim compreender um pouco melhor, se
couber, o seu uso na atualidade.
1.
A inspiração
Em
primeiro de julho de 1858 foram lidos na Real Sociedade Linneana
de Londres dois trabalhos. O primeiro era de Charles Darwin,
e o segundo de Alfred Wallace. Assim nasceu publicamente o
que hoje se conhece como “Teoria da Evolução”. Darwin e Wallace
haviam trabalhado de forma inteiramente independente, o primeiro
viajando pela América do Sul, e o segundo pelo Arquipélago
Malaio, mas haviam chegado à mesma conclusão: a variedade
atual observável no reino animal e vegetal não era produto
da infinita sabedoria do Deus da Bíblia, mas sim o resultado
da seleção natural.
Vejamos
como Wallace nos relata o mecanismo que tornou possível a
diversificação das espécies:
A vida
dos animais selvagens é uma luta pela sobrevivência. Requer
o exercício pleno de todas as suas faculdades e energias para
conservar a própria existência e cuidar da prole recém-nascida.
A possibilidade de procurar alimento durante as estações menos
propícias, e de se livrar das investidas de seus inimigos
mais perigosos, são as condições primordiais que determinam
a existência tanto dos indivíduos como de toda a espécie.
... Imenso deve ser o número dos que morrem a cada ano; e
como a existência de cada animal depende dele mesmo, os que
morrem devem ser os mais fracos. ... E pelo contrário, os
que prolongam a sua existência serão somente os mais perfeitos
em saúde e robustez. ... Como indicamos no princípio, é uma
luta pela sobrevivência na qual hão de sucumbir sempre os
mais fracos e de organização mais imperfeita. (1)
O
Professor Brncic nos relembra como a visão da seleção natural
do século passado estava carregada de sangue, garras e dentes,
e se justificava assim a bárbara competição social e econômica
com o simples dizer que “o mais forte deve sobreviver e o
mais fraco deve ser aniquilado”. (2)
Enquanto
eu lia as proposições de Wallace, tinha a impressão de que
essa visão da natureza me era familiar, e já tinha sido desenvolvida
antes por outro pensador. De fato, trata-se da idéia que Thomas
Hobbes, o pai do liberalismo, havia tido da natureza humana.
É o Homo hominis lupus (O homem, lobo do homem) dos
liberais, o estado de guerra total que Hobbes supõe como condição
natural do homem. (3) Por isso, permito-me discordar
de Brncic: não é a evolução que impõe à sociedade uma economia
e uma política desumanas, mas foi o liberalismo que inspirou
a teoria da evolução e a impôs aos
biólogos.
O
próprio Darwin reconheceu que a leitura casual de um renomado
liberal foi decisiva para a elaboração de sua teoria:
Em outubro
de 1839, isto é, quinze anos antes de começar minhas pesquisas
sistemáticas, o acaso fez com que eu lesse, por recreação,
o livro de Malthus sobre as populações. Estando bem preparado
para apreciar a luta pela sobrevivência que ocorre em todas
as partes, devido às minhas prolongadas e contínuas observações
sobre os hábitos dos animais e as plantas, ocorreu-me de repente
que, sob essas circunstâncias, as variações favoráveis tenderiam
a ser preservadas, e as desfavoráveis a ser destruídas. O
resultado seria a formação de novas espécies. (4)
Limoges
pensa que o conceito que Darwin recebeu de Malthus foi o da
pressão opressiva que esta luta pela sobrevivência exerce
sobre os seres vivos, gerando uma guerra implacável entre
eles. (5) Por curiosa coincidência, Wallace também
leu Malthus, e reconheceu em sua carta a A. Newton em 1887
que foi esse autor liberal quem o inspirou na formulação da
teoria, antes de conhecer Darwin. (6)
Hoje,
os estudiosos acreditam que esta teoria foi descoberta por
biólogos e impôs-se pelas suas comprovações científicas. A
verdade é muito diferente: ela foi inspirada pelo pensamento
político liberal e imposta pela pressão exercida em nome da
ciência. Como sustenta Gilson, é uma estranha teoria que goza
de um caráter singular: é um híbrido composto por uma doutrina
filosófica e uma lei científica. Deste modo, goza da generalização
própria da filosofia, e da certeza demonstrativa da ciência;
em uma palavra, “é praticamente indestrutível”. (7)
Thomas
Robert Malthus (1766-1834) formou-se conforme os ideais do
iluminismo, o que entretanto não lhe impediu de ser ordenado
pastor anglicano. A leitura de Adam Smith o convenceu da necessidade
de ordenar a vida citadina para combater a pobreza e, fiel
à inspiração central da economia liberal, convenceu-se de
que a culpa da pobreza é dos próprios pobres. A extraordinária
afeição deles pelo vício, e especialmente a sua tendência
de procriar mais filhos do que podem alimentar, provoca um
ciclo de miséria e morte. Em face deste aumento explosivo
da população, a natureza responde com pobreza, guerra, epidemias,
etc., de modo a controlar
a população e fazê-la voltar aos limites toleráveis
pela produção de alimentos. Por isso Malthus é um apóstolo
da campanha contra a preocupação das autoridades para aliviar
a situação dos mais desprovidos, pois essa política tradicional
só perpetua a miséria e a corrupção. David Ricardo, John Stuart
Mill e outros renomados economistas liberais do século seguiram
as suas doutrinas. Toda a crítica marxista está orientada
contra essa visão da economia, não por ser injusta, mas porque,
aceitando-a como verdadeira, procura levá-la de imediato ao
seu desenlace final. A conhecida “lei de bronze do salário”
nada mais é do que a expressão econômica da teoria das populações
de Malthus.
Darwin,
pois, leu em Malthus que os seres vivos se multiplicam mais
rapidamente do que os recursos alimentares. Esta situação
provoca uma guerra sem quartel em que sempre triunfa o mais
forte. Isto é o que a natureza procura a fim de aperfeiçoar-se
a si mesma, e por isso a luta pela sobrevivência é positiva
e tem como resultado – isso é o que acrescenta Darwin – novas
espécies mais perfeitas que as anteriores.
Observemos
que Darwin reconhece que Malthus lhe inspirou a teoria “quinze
meses antes de começar minhas (suas) pesquisas sistemáticas”,
o que nos revela que não foi a biologia, mas sim a política
liberal a verdadeira inspiradora da teoria da evolução. À
parte da confissão de Darwin, realcemos algumas provas. Dado
que o liberalismo havia impregnado a sociedade européia de
meados do século, o triunfo da nova teoria era inevitável:
a livre competição era o dogma fundamental da existência,
até no nível vegetal. Com efeito, Malthus escreveu:
No reino
animal e no reino vegetal a natureza distribuiu com mão rica
e pródiga as sementes da vida. Em comparação, foi parca quanto
ao espaço e à alimentação necessários para fazê-los crescer.
Os germes da vida contidos em nosso pequeno planeta, se tivessem
suficiente alimento e lugar para se estender, poderiam encher
milhões de mundos em alguns milhares de anos. ... Nos animais
e plantas, os seus efeitos são o desperdício de sementes,
a enfermidade e a morte prematura. No homem, a miséria e o
vício. (8)
O
seu cálculo foi muito conservador. Estima-se hoje que uma
simples bactéria necessita menos de uma semana para produzir
uma massa de bactérias do tamanho do planeta Terra. (9)
Já em 1844, o biólogo Verhulst havia apresentado um
trabalho na Academia Real de Bruxelas, em que desenvolvia
a teoria de que as espécies animais e vegetais apresentam
uma curva de crescimento que não é constante. Após um início
lento, segue-se um crescimento rápido, para finalmente estabilizar-se
quase completamente. (10)
Enquanto
a teoria de Malthus inspirava a evolução e as políticas anti-natalidade
da atualidade, os cientistas estavam demonstrando que as idéias
de Verhulst e de M. T. Sadler eram as corretas. Experiências
realizadas com plantas e animais a partir do fim da primeira
guerra mundial demonstraram completamente que toda população
está regulada por fatores internos e externos variáveis, sendo
os principais o espaço e a alimentação. Deste modo, a população
regula a sua própria fertilidade e o fenômeno temido por Malthus
nunca se produz. (11)
Podemos
concluir, pois, que a idéia que inspirou a teoria da evolução
é um erro biológico nascido da aplicação de uma falsa teoria
política a um campo que não lhe era próprio. (12)
2.
O conceito
A
palavra evolução provém do Latim, onde significa “desenvolvimento”,
“desenrolamento”, ou “desdobramento”. Vale dizer, supõe-se
que não se cria nada novo, mas que se faz aparecer o que já
estava presente, embora oculto. Por isso, Poetarum evolutio,
para Cícero, será a leitura dos poetas, seja porque se teria
de desenrolar o rolo escrito, seja porque o leitor se limitaria
a manifestar o que ali estava latente.
Já
na antigüidade foi apresentada uma doutrina estritamente evolucionista.
Para a antiga Stoa, o fundamento de todas as coisas
era o fogo, como para Heráclito; hoje esse fundamento foi
substituído pela concepção de uma lei imanente universal,
um “logos”, que rege o universo inteiro como o destino, e
que contém em si a semente de tudo o que aparecerá no mundo.
E por isso, ele é chamado de “logos spermatikós”, e as suas
sementes serão os “logoi spermatikoi”, e terão exatamente
uma função análoga à das idéias exemplares de Platão. Muito
agradaria a Santo Agostinho esta teoria, que traduz literalmente
as rationes seminales criadas por Deus simul,
todas juntas, mas que aparecerão paulatinamente, cada uma
a seu tempo devido, segundo a Providência divina haja determinado.
(13) Seguindo a Santo Agostinho, São Boaventura
e Malebranche manterão que, terminada a criação no primeiro
instante, nada novo aparecerá jamais com independência desse
ato criador. É curioso ver esta mesma doutrina defendida por
um notável biólogo, Charles Bonnet (1720-1793), que a aplica
à ontogênese, ou formação do ser vivo, e que supõe que na
semente está tudo o que aparecerá posteriormente no adulto
em estado de involução, se puder ser admitida esta expressão.
Com esta doutrina, Bonnet se opunha a Aristóteles, para quem
a ontogênese cria órgãos novos graças à força que possui a
forma para eles. (14)
Infelizmente
parece que Bonnet foi o último que usou a palavra evolução
no seu sentido próprio. A partir do século XIX esta palavra
poderá significar qualquer coisa, mas certamente é certo que
não significa a única coisa que deveria significar, isto é,
que o que agora vemos já estava realmente presente, embora
oculto, esperando o momento propício para aparecer.
Entretanto,
certos cientistas e filósofos, mais filósofos do que cientistas,
desenvolveram nestes últimos séculos uma teoria que, em sentido
lato, ainda podemos chamar de evolução. Refiro-me a Lamarck,
Spencer, Bergson e Teilhard de Chardin. É tal a confusão reinante,
que muitos pensam que estes autores sustentam a mesma teoria
que Darwin e Wallace, apesar de diferirem em alguns pontos.
Um dos poucos que tentou infrutiferamente durante toda a sua
vida clarear as idéias, foi Spencer, o verdadeiro criador
de uma teoria integral de evolução universal, filosófica,
não científica, que teve, porém, de reconhecer, com desespero,
em 1880, que havia perdido a batalha. Sua teoria era atribuída
a Darwin; a seleção natural, que a destruía era considerada
a sua causa; e para cúmulo dos males, era atribuída a Darwin
a teoria que ele mesmo havia rechaçado. (15)
Não
se tem a intenção de entrar aqui no detalhe das hipóteses
desses autores. Diremos somente que talvez a mais coerente
e bem formulada dentre elas seja a de Bergson.
Possivelmente
a única idéia compartilhada por todos os transformismos e
evolucionismos modernos seja a que Spencer expressou melhor
do que ninguém, em seus famosos princípios primeiros, onde
parte de uma lei suprema da natureza – a da evolução – e logo
lhe atribui leis particulares que sempre consistirão no trânsito
do menos complexo para o mais complexo, e isso por necessidade
interna. Como bom filósofo moderno, Spencer não dá prova alguma
de suas famosas leis, talvez por considerá-las demasiado evidentes.
Resulta disso que a evolução é um processo progressivo, aperfeiçoador,
cujos frutos são sempre melhores à medida que o próprio processo
vai se realizando.
Foi
Bergson quem identificou a evolução com o progresso, sendo
seguido por Teilhard de Chardin. Foi Bergson, porém, quem
melhor exprimiu a necessidade de um princípio responsável
pela evolução. O seu justamente famoso élan vital,
princípio criador, ordenador, organizador da matéria, dirigiria
a evolução através de seus múltiplos e inumeráveis elementos
que são os diversos seres vivos. Embora tenhamos que ampliar
o conceito de “evolução” para aplicá-lo a estas teorias, já
que o resultado final não está realmente contido no momento
inicial como seria exigido, existe sem dúvida um elemento
unificador, que permanece sempre o mesmo: energia, força ou
causa da própria evolução, responsável pelas mudanças que
ela dirige com consumada sabedoria, e que por isso mesmo,
de algum modo podemos dizer que já os contêm em potencial
antes de serem desenvolvidos. Por isso merecem o título de
evolução, se bem que em um sentido lato e não estrito.
A
teoria transformista, por outro lado, é algo completamente
distinto. Aqui não existe uma força interna que dirija o processo,
não há algo que permaneça o mesmo através do tempo, e do qual
se possa dizer com propriedade que evolui. O transformismo
supõe um novo ser vivo, que nasce certamente do anterior,
mas graças mais a transformações que este sofre, do que causa.
É neste sentido que deveríamos interpretar a Lamarck, Darwin
e Wallace. Teríamos também de aí juntar a imensa maioria dos
cientistas que na atualidade se declaram evolucionistas. Entretanto,
como as idéias carecem de clareza, e são muitas as objeções
que a teoria transformista tem levantado nos últimos anos,
na hora das explicações, muitos deles pendem para um evolucionismo
mais ou menos lato.
A
atenção deverá ter sido chamada
para a repetição do nome de Lamarck. A sua hipótese
é evolucionista ou criacionista?! Na verdade poderá tanto
ser uma como outra, tudo dependendo do alcance dado à sua
explicação central. É sabido que em sua hipótese a causa de
mudança é a adaptação ao ambiente, que pressiona o ser vivo
e o obriga a transformar-se, de onde se dizer que a necessidade
cria o órgão. Este é um dos disparates mais famosos na história
do pensamento humano, cujo êxito nos leva a pensar muito mal
da qualidade intelectual dos que o aceitaram. E isso porque
enquanto não existir órgão não há função, e enquanto não houver
função não há necessidade, o que se resume na relação entre
o órgão e a função. A função não é mais do que a atividade
do órgão: poderia haver uma atividade sem o órgão correspondente?
Pelo menos no mundo biológico, é impossível! (16)
Em
conseqüência, a teoria de Lamarck pode ser interpretada de
dois modos: seria evolucionista se a adaptação proviesse da
força do ser vivo que desenvolve uma de suas possibilidades
latentes ao encontrar um ambiente propício; seria transformista
se o ambiente impõe ao ser vivo uma nova estrutura que ele
estava longe de poder criar. Qual foi o pensamento íntimo
de Lamarck? É muito difícil precisá-lo, se bem que nos inclinemos
pela evolução. De fato, este notável biólogo cria que Deus
havia criado os primeiros seres vivos e os havia orientado
para a evolução.
Etienne
Gilson descobriu que Darwin não usou o termo “evolução” que
designa, segundo o consenso atual, a sua própria hipótese,
não que não o conhecesse, mas porque não representava a sua
idéia. O mais surpreendente é que Francis Darwin, seu filho,
para fazer passar seu pai como evolucionista, teve de suprimir
um trecho da sua “Autobiografia”, justamente aquele em que
Darwin fala de Spencer e sua filosofia. Nele Darwin assinalava
que as conclusões a que Spencer chegara “nunca me convenceram”;
que suas generalizações fundamentais “são de tal natureza
que não me parecem de utilidade alguma”. Finalmente, termina
o seu juízo com uma frase lapidar: “De qualquer maneira,
não foram de nenhuma utilidade para mim”.(17)
Em suma, a leitura de uma verdadeira teoria evolucionista
deixou Darwin completamente apático. Compreende-se, então
a necessidade de suprimir aquela página da autobiografia do
“criador da teoria da evolução”!
Parece
que a palavra que satisfazia a Darwin era “transmutation”.
Realmente este termo exprime cabalmente o que a sua mente
havia engendrado. Poderíamos expressá-lo assim: Existe no
mundo uma variedade incrível de espécies animais e vegetais.
Qual a causa disso? Ao observar como os criadores de animais
e plantas na Inglaterra, sua terra natal, conseguiam maravilhas
graças à seleção dos reprodutores mais aptos para o fim a
que se propunham, pensou
que a natureza podia fazer o mesmo.
O
procedimento da natureza merecia ser chamado de “seleção
natural”. Muitas perguntas se acumulam em seu pensamento
enquanto escuta a descrição da seleção. É possível uma seleção
sem um selecionador? Como se realiza a seleção? Qual é o seu
efeito? Incomodado por essa e outras perguntas, Darwin mudou
várias vezes o sentido da expressão, e terminou reconhecendo
que ela era tão somente uma metáfora. A estas alturas, parece
absolutamente incrível que o que explica tudo na biologia
moderna seja tão somente uma metáfora! (18)
Já
vimos a descrição que faz Wallace da seleção natural, e dissemos
que era uma aplicação curiosa da concepção liberal da natureza
humana concebida como a de uma fera sangüinária. Lamentavelmente,
a biologia mudou o seu conceito de fera, e se distanciou da
visão liberal. Não existem tais feras sanguinolentas, sedentas
de sangue. Cada espécie cumpre um papel insubstituível em
seu meio, de modo a manter incólume o equilíbrio natural.
Quantas vezes o homem teve de lamentar ter extinguido algum
carnívoro! Na Patagônia foi desastroso ter acabado com eles,
pois isso permitiu a proliferação dos coelhos, que se tornaram
uma praga. Pensa-se agora que o melhor será importar carnívoros
para restabelecer o equilíbrio.
Na
luta pela existência sobrevive o mais apto. A isto Darwin
denomina seleção natural. Da maneira como a
seleção artificial dos criadores ingleses consegue novas variedades
ou raças mais aptas para um propósito previamente determinado,
Darwin supôs que a natureza fazia o mesmo. Entretanto, nada
há de mais improvável. É muito discutível que a morte selecione
em algum sentido. É verdade que um ser defeituoso, incapaz
de viver, morre, e assim é eliminado. Por outro lado, um que
é apto para suportar uma determinada enfermidade pode não
o ser para outra. As mortes acidentais selecionariam o que?
De qualquer forma, uma seleção natural só seria compreensível
se tivesse sido planejada por uma inteligência.
Dizíamos
há pouco que os autores modernos ignoram completamente a diferença
que existe entre uma teoria transformista e uma teoria evolucionista.
À guisa de exemplo, daremos algumas definições que aparecem
em livros modernos, e veremos como são confundidas as duas
teorias.
Em
1959 reuniram-se em Chicago cinqüenta cientistas em um congresso
em homenagem ao autor de “A Origem das Espécies”, no centenário
da publicação do livro. Conseguiram então se pôr de acordo
com uma definição tão vaga que conseguisse contornar as suas
diferenças, deixando-as na penumbra:
A evolução
pode ser definida em termos gerais como um processo unidirecional
e irreversível que no transcurso do tempo gera novidade, diversidade
e níveis de organização mais elevados.
Notemos
que não se menciona a seleção natural nem a adaptação ao meio.
Tampouco se fala das mutações. Tudo isso pela total falta
de acordo sobre esses particulares. Entretanto, ao dizer que
o processo é unidirecional e irreversível, afasta-se da concepção
de Darwin e se aproxima mais da de Spencer.
Nesse
mesmo congresso interveio o Professor C. H. Waddington, da
Universidade de Edimburgo, que trouxe um esquema de como se
produz realmente a evolução. Nele, há a interveniência de
uma nova noção. Segundo a sua hipótese, os seres de uma geração
selecionam o ambiente, que por sua vez os pressiona e faz
desenvolver potências latentes que farão aparecer novos órgãos
na geração seguinte, e assim sucessivamente. (20)
Temos assim claramente tipificada uma evolução no estilo de
Lamarck e Bergson, e muito distante da concepção de Darwin,
da qual só permanece o termo “seleção natural”, cujo conteúdo,
porém, tem variado fundamentalmente, até se tornar exatamente
o oposto do que significava. Por isso, não nos surpreende
o mínimo, como explicação última do processo, que o Padre
Raymond Nogar, O. P., partidário decidido da seleção natural
darwinista a destrua completamente ao concluir que “a evolução
não é outra coisa que um caso de inadaptabilidade. ... É,
na realidade, o modo de adaptação e persistência da espécie.”
(21) A única coisa que nos surpreende nesse dominicano
ilustre é que, depois destas palavras, continue crendo na
evolução, porque, se ele tiver razão, não se poderia jamais
sair da espécie original, se bem que ela aceitasse novas versões.
Uma espécie que se adapta ao ambiente não deixa de ser o que
é, mas o que Darwin queria explicar era a destruição das espécies
para dar origem a outras novas. Além do mais, resulta convincente
que um indivíduo real se adapte a um determinado meio, mas
como se daria uma adaptação universal?
François
Jacob, prêmio Nobel de Medicina em 1965, apresenta-nos a sua
concepção de evolução:
Todos
os organismos passados, presentes e futuros descendem de um
só organismo, ou de alguns raros sistemas vivos que se transformaram
espontaneamente. ... As espécies derivaram-se umas das outras
por seleção natural dos melhores reprodutores. (22)
Temos
assim expressa fielmente a teoria de Darwin. Notemos, sim,
que Jacob estabelece sem qualquer comprovação a formação espontânea
dos primeiros seres vivos, os que obviamente não se originaram
graças à evolução.
Chama
a atenção fortemente que a evolução se origine em “sistemas
vivos que se transformaram espontaneamente”, porque o mesmo
autor assinalou em outra página de seu mesmo livro: “Basta
uma experiência relativamente simples para refutar a geração
espontânea”. (23)
Desta forma, a origem dos seres vivos permanece
refutada pela biologia contemporânea.
É
também altamente interessante que a evolução não ocorra paulatinamente
como desejava Darwin, mas sim “pela introdução sobre a
terra, de tempos em tempos, de novos grupos de plantas e animais”
(24) , e que “se a formação do mundo vivo
se produziu sob o efeito de causas que ainda operam hoje em
dia, deve ser possível vê-las em ação sob certas condições.”
(25) Isso é exatamente o que desejaríamos ver,
mas ninguém jamais o viu.
Certamente
os cientistas têm feito todo o possível para produzir a evolução
em seus laboratórios, e nada conseguiram. Foram usados raios-X,
alfa, beta e gama, ultravioleta e diversas substâncias químicas
que se mostraram essencialmente ativas. Todos conhecemos um
caso de mutação no homem: o mongolismo provocado pelo surgimento
de um segundo gene que duplica um dos genes do par 21. As
experiências mais famosas foram as realizadas com a mosca
das frutas, a Drosophila melanogaster, que deram origem
a uma incrível quantidade de mutações, incluindo moscas sem
asas. Essa pobres moscas nos recordam a mutação humana que
deu origem ao mongolismo. A respeito do assunto, há cientistas
que fizeram algumas observações: Em primeiro lugar, trata-se
de uma situação totalmente artificial, em que se provocam
condições a que nunca foram elas submetidas na natureza; em
segundo lugar, todas são e continuam a ser moscas, nunca tendo
se conseguido criar uma espécie nova; em terceiro lugar, a
maioria das mutações provocou a morte das moscas; e finalmente,
as experiências envolveram 50 mil gerações que resistiram
com êxito a prova, conseguindo manter sua condição de moscas
contra todos os ataques sofridos no laboratório. Transportando
as 50 mil gerações de moscas para comparar com a vida humana,
isso equivaleria a um milhão de anos. Desta maneira, as experiências
em laboratório deixaram contentes gregos e troianos, pois
todos encontram nelas a comprovação empírica de suas próprias
teorias.
Voltemos,
porém, ao nosso prêmio Nobel, digno representante do evolucionismo
darwinista. Curiosamente, interpretando o sentir de Darwin,
Jacob volta a se afastar totalmente do transformismo para
cair no evolucionismo. De fato, ele nos diz que “a capacidade
dos seres para modificar-se em suas formas, suas propriedades,
seus costumes, é inerente a todos os viventes.” (26)
E esta parece ser a causa da evolução; isto é, regressamos
a Lamarck e abandonamos Darwin. Unimos então a essa capacidade
a luta pela sobrevivência e o seu corolário da seleção natural,
com o que voltamos a Darwin e obtemos a visão que este prêmio
Nobel nos dá da teoria atual da evolução das espécies.
Em
filosofia esse tipo de soluções recebe o nome de “ecleticismo”.
Certos pensadores não notam a incompatibilidade que existe
em opor diversas teses, e as unir. Deste modo se obtêm soluções
muito satisfatórias para mentes pouco exigentes, mas elas
duram pouco. Logo se percebe que os elementos que entraram
na síntese tendem a se separar, porque realmente não se produziu
uma síntese, e a nova hipótese fica destruída. Por isso compreendemos
a dureza do juízo de Gilson com a qual iniciamos nossas considerações.
3.
A espécie
O
título do famoso livro de Darwin era A Origem das Espécies.
Hoje em dia, a teoria que se supõe que o livro defende é chamada
de A Evolução das Espécies. Por isso, tendo visto o
que significa o termo evolução, resta-nos averiguar
o que se quer dizer com o vocábulo espécie. Species
significava primitivamente “olhada”, “vista”, “golpe de vista”.
Parece
que Cícero usou esse termo para traduzir a palavra grega ,4*@..
Trata-se, obviamente, da idéia platônica que posteriormente
deu origem às famosas species impressa e
species expressa da escolástica. Não é este,
entretanto, o significado que a biologia atual herdou. Como
todos sabemos, Aristóteles negou a existência extra-mundana
das idéias platônicas, e as incorporou como forma aos entes
corpóreos. Brota daqui um conceito de espécie que reúne a
todos os seres vivos que realizam uma mesma forma substancial.
Este sentido é muito próximo ao usado hoje pelas ciências
e é o que prevalecia na biologia anterior a Darwin. Linneu
procurou classificar estas espécies. Não obstante,
“ainda hoje,
um século depois de Darwin, o problema das espécies permanece
submetido a muito estudo ativo e a uma longa controvérsia.”
(27)
A
pergunta, então, é muito simples: Existem espécies? Dado que
elas evoluem, é necessário que existam; de outro modo, a teoria
se limitaria a explicar a origem de algo que não existe. (28)
Em
Platão e Aristóteles não há problema com o conceito, porém
se trata de uma noção filosófica. Talvez por isso mesmo os
cientistas se defrontam com problemas insolúveis quando o
abordam.
Já
Buffon havia chegado à conclusão de que não existem espécies
definidas com precisão, e que a natureza simplesmente não
se presta a estas divisões que os cientistas lhe impõem. Na
verdade, na natureza só há indivíduos, e os gêneros, ordens,
classes “só existem em nossa imaginação”. (29)
O
curioso é que o mesmo Buffon afirma em outro lugar que só
existem as espécies, o indivíduo não sendo nada.
Gilson
nos diz que todos os classificadores dos séculos XVII e XVIII
pensavam que quanto mais indivíduos se conhecessem, menos
espécies se encontrariam. (30) Tal foi o caso do
próprio Lamarck:
“Durante
muito tempo pensei que havia espécies constantes na natureza,
e que elas estavam constituídas por indivíduos que pertenciam
a cada uma delas. Agora estou convencido de que eu estava
errado com relação a esse assunto, e de que na natureza realmente
não existe nada mais do que indivíduos.” (31)
A
Darwin ocorreu o mesmo, até publicamente ter confessado a
impossibilidade de distinguir uma espécie de uma variedade,
e os terríveis problemas que os classificadores enfrentam,
até o ponto extremo de que
“O termo
espécie chega, assim, a não ser nada mais que uma abstração
mental inútil que implica e requer um ato de criação distinto”.
Impõe-se,
pois, esclarecer esse conceito, para saber do que estamos
procurando a origem, e como se dá a sua evolução.
Os
autores modernos registram que já se classificou mais de um
milhão de espécies animais, pelo que se torna necessário reconhecer
a sua existência, por mais enigmática que ela possa nos parecer.
Na hora de definí-las, realmente as oscilações são notáveis.
Um
dos estudiosos do tema, que pude consultar, dá-nos várias
pinceladas para que possamos construir um conceito mais ou
menos bem delineado. A primeira observação que nos proporciona
é de que as espécies são “comunidades de reprodução”.
Essas comunidades, porém são geneticamente fechadas, isto
é, não permitem uma reprodução com membros de outra espécie.
Por isso é impossível falar de espécie onde não existe
reprodução sexual. Finalmente, nos é assegurado que
são processos especiais de adaptação que dão origem às espécies,
pelo que podemos considerá-las como adaptações bem sucedidas.
(32)
Podemos
observar que nesse estudo não se faz menção das características
de forma que unem os membros de uma mesma espécie, o que no
fundo era o que se tinha recebido de Aristóteles, e que tudo
foi reduzido a uma característica exterior ao próprio animal.
O aspecto grave dessa redução é que ela torna ininteligível
falar de espécie onde não houver reprodução sexual, o que
deixa de fora todo o mundo unicelular, tanto de animais quanto
de vegetais.
Até
este ponto falta-nos um critério simples de classificação,
e esse mesmo autor nos diz que “o número de categorias
de classificação é indefinido e arbitrário”. (32)
Como a espécie é uma dessas categorias, resulta que elas são
arbitrárias. E deve ser assim, já que “se descobriu um
número cada vez maior de casos nos quais fica difícil ou impossível
dizer se duas populações constituem espécies distintas, ou
então raças da mesma espécie”, ( 34) de tal
modo que “a denominação dada às espécies é uma concessão
a nossos costumes e a nossos mecanismos neurológicos”
quando se trata de reprodução assexuada de qualquer tipo.
(35)
Talvez
o caso de Dobzhansky seja extremo. Porém semelhante é também
o conceito de Simpson, de De Candolle, de Calman, etc. (36)
Alguns deles agregam a noção de parentesco, que se deduz da
afirmação de que todos os membros de uma mesma espécie descendem
de um único antepassado. Mas se a evolução fosse real, tal
hipótese seria comum a todos os seres vivos, e todos constituiriam
uma só e única espécie. Outros acrescentam a noção da semelhança
entre os membros de uma espécie, semelhança maior do que teriam
com um membro de qualquer outra espécie. Tal conceito nos
recorda fortemente de Aristóteles, para quem a forma comum
era reconhecida por semelhanças fundamentais, essenciais,
que produziriam uma identidade essencial entre todos os membros.
Infelizmente, é tal a quantidade de detalhes que atraem a
atenção do biólogo, e tais as diferenças entre os indivíduos,
que muitos classificadores se sentem sobrecarregados pela
complexidade do real e renunciam a este critério.
De
tudo isto, não deixa de ser surpreendente escutar do próprio
Dobzhansky e de muitos outros biólogos, que a única coisa
segura é a existência das espécies, e que estas são as que
desde tempos imemoriais o senso comum dos camponeses identificou
como tais. (37) Todas as demais categorias da classificação
são arbitrárias; as espécies, assim, são naturais e estão
separadas umas das outras por fronteiras intransponíveis,
até o extremo de não haver
intermediários entre elas. Cada espécie está separada
da outra por um hiato biológico, o que se explica porque cada
uma delas seria um cume adaptativo separado das outras por
vales adaptativos. Em outras palavras, só as espécies que
existem neste momento são viáveis, e seres intermediários
não existem simplesmente porque não lhes seria possível viver.
(38) Sem dar-se conta, Dobzhansky deitou por terra
uma das idéias mais acariciadas de Darwin: a evolução ser
um processo lento em que variações imperceptíveis vão-se somando
ano a ano até fazer emergir uma nova espécie. Esta idéia era
importantíssima porque era a resposta que sempre os evolucionistas
davam aos que, com certa inquietude, perguntam: Por que nunca
se viu aparecer uma nova espécie?
De
fato, as espécies descritas por Aristóteles há 2400 anos nada
evoluíram. O Professor Haldane destacou que alguns caracteres,
como o comprimento dos ossos, “não mostram mudanças evolutivas
apreciáveis na maioria das espécies no decorrer de dez mil
anos”. (39) Para o cúmulo, outro biólogo nos
adverte:
“as partes
do cérebro, filogeneticamente antigas, em oposição ao neo-córtex,
mudaram muito pouco nos últimos cinqüenta milhões de anos
de evolução dos mamíferos”. (40)
A
existência de híbridos apresenta problemas muito difíceis
para essa idéia da separação genética das espécies. Assim,
seria possível que as espécies não fossem o que hoje consideramos
como tais, mas sim os gêneros, ou até as famílias. É certo
que a maioria dos híbridos é estéril, mas existem híbridos
fecundos, e, o que é ainda mais surpreendente, acontece terem
descendentes que retornam à espécie primitiva. Produz-se assim
um fenômeno curioso de fecundidade através de uma espécie
intermediária. (41)
Estes e outros fenômenos análogos fazem com que nos
enchamos de dúvidas com relação à certeza que nos leva a privilegiar
as espécies em detrimento das demais categorias da classificação
biológica.
Gilson,
mais uma vez, propõe pelo menos um bom curso de história da
filosofia medieval onde se estude o famoso problema dos universais.
Em face da perplexidade dos mais eminentes cientistas da atualidade,
ele nos recorda as perplexidades dos
filósofos do mundo antigo:
“Assidet
Boetius stupens de hac lite
Audiens
quid hic et hic asserat perite
Et
quid cui faveat non discernit rite
Nec
praesumit solvere litem definite.” (42)
Ou,
traduzindo:
Boécio,
estupefato, assiste a este debate
Escutando
o que diz este e aquele com perícia
E
a quem dar a razão não discerne como é devido
Nem
pretende resolver definitivamente a questão
Tem-se
a impressão de que os nossos biólogos, entre Platão e Aristóteles,
ao não saber que partido tomar, aderiram a ambos. É bom recordar
que o primeiro a sustentar que só existem indivíduos na natureza
foi Aristóteles.
Tampouco
compreendemos que se favoreça tanto a existência da espécie
com relação ao gênero, à família, etc. Se bem que a reprodução
possa constituir um bom critério para os seres vivos atuais,
de nada serve para os paleontologistas, de modo que eles desconhecem
se estão tratando de espécies, variedades, etc. (43)
O próprio Darwin nos disse: “considero que o termo
espécie foi dado arbitrariamente, por motivos de conveniência,
para reunir grupos de indivíduos que se assemelhem intimamente
entre si. ... O termo variedade, por sua vez, em comparação
com as meras diferenças individuais, também se aplica arbitrariamente
por questão de conveniência.” (44)
Infelizmente,
talvez se tenha de estender este raciocínio a todos os graus
da classificação animal e vegetal, com o que a origem das
espécies seria a origem de uma arbitrariedade.
4.
A causa
Por
que as espécies evoluem, em vez de se manterem constantes?
Seja o que for uma espécie, e seja o que for a evolução, é
claro que se está falando de uma mudança, e essa mudança requer
uma causa que a proporciona. Desde o início os biólogos têm-se
esforçado por descobrir essa causa e compreender o seu funcionamento.
Comecemos
por Lamarck, que se destaca como o pai da teoria moderna.
Para ele, são as circunstâncias que determinam e provocam
todo o processo.
“Não são
os órgãos, isto é, a natureza e a forma das partes do corpo
de um animal, que dão lugar aos seus costumes; é da sua maneira
de viver e das circunstâncias em que se encontrou o indivíduo,
que provém o que, com o tempo, constituiu a forma de seu corpo”.
(45)
As
circunstâncias mudam, mas elas não mudam o organismo do ser
vivo; as necessidades novas que ele experimenta neste novo
ambiente é o motor que impulsiona o organismo a mudar e desenvolver
faculdades e partes de que carecia na circunstância anterior.
Temos, então, que os costumes criam as necessidades, as quais,
diante de um novo ambiente, obrigam o ser vivo a criar novas
estruturas para satisfazê-las. Notemos que é a força interior
do animal a verdadeira causa da criação da nova forma ou órgão,
porém impulsionada pela necessidade; necessidade que, por
sua vez foi impelida pela circunstância. As novas formas se
herdam, e assim, pouco a pouco, a partir dos seres simples
que a natureza criou, chegamos, finalmente, aos seres atuais
de grande complexidade.
Lamarck
triunfa ao nos apresentar organismos atrofiados pela falta
de uso; só falta a outra metade de sua teoria: que o uso produza
um novo órgão. Cuvier (1769-1832), no elogio fúnebre a Lamarck
desvendou o ponto fraco da sua teoria: como pode o exercício
produzir um órgão novo, que não pode exercitar-se senão depois
de haver sido produzido? Daí ter surgido o adágio falsamente
atribuído a Lamarck, de que “a necessidade cria o órgão”,
que, não obstante, expressa bem o fundo de seu pensamento.
(46)
Observemos
como o pensamento íntimo de Lamarck é evolucionista, pois
é o impulso interior o principal no processo; de fato, as
circunstâncias desempenham um papel tal que bem pode ser considerado
como transformista, como dissemos mais acima.
Os
cientistas modernos se descartam de Lamarck com uma simples
frase: “Hoje em dia sabe-se que os caracteres adquiridos
não se herdam”, (47) afirmação esta que fere
a mais de uma teoria além da de Lamarck.
Podemos
dizer que Spencer, o verdadeiro criador do evolucionismo,
como vimos, seja seguidor de Lamarck quanto à causa do processo.
De fato, para ele, tudo provém de uma causa interior que busca
adaptar-se às circunstâncias; como estas mudam, seus esforços
dão resultados distintos.
Darwin
estava convencido de que a principal característica da vida
é a escassez. Assim tinha lido em Malthus, e assim acreditava.
A natureza se protege produzindo uma abundância enorme de
seres vivos, que deverão combater entre si pelos escassos
alimentos. Isso significará o triunfo dos mais perfeitos,
dos mais bem adaptados. E assim, pouco a pouco, vão se aperfeiçoando
as espécies até darem origem a outras espécies novas. A prova
tinha Darwin nas maravilhas da seleção artificial nas criações
de gado da Inglaterra, como na de seu pai, que recebeu como
herança.
Diferentemente
de Lamarck, para quem a causa era mais interna do que externa,
para Darwin a causa era mais externa do que interna. Ele considerava
o ser vivo como infinitamente plasmável, e seriam os impulsos
exteriores que fariam aparecer novos aspectos, e a seleção
natural, filha da luta pela sobrevivência, dirigiria todo
o processo. Para ele, toda a explicação de Lamarck era um
absurdo, e a de Spencer o deixava indiferente. Na verdade,
ele nunca explicou a origem absoluta das espécies, mas sim,
supondo que elas existissem, quis explicar porque chegaram
elas a ser o que hoje em dia são; vale dizer, tratou do aspecto
atual delas. (48)
À parte a sua constante comparação com a seleção artificial,
Darwin nunca se aprofundou nessa questão. Parece que ele acreditava
em variações espontâneas que se iriam somando até produzir
uma nova espécie. (49)
O êxito de sua doutrina deveu-se exclusivamente à sua
filiação liberal.
S.
A. Barnett reconhece isso explicitamente em seu volume de
homenagem a Darwin: “Darwin mesmo não formulou nunca (sua
teoria de seleção natural) de um modo logicamente válido.”
(50)
O
seu princípio de que sobrevive o mais apto não passa de um
círculo vicioso, porque é mais apto quem sobrevive. Entretanto,
para que houvesse evolução, teve de aceitar o que também Lamarck
preconizava, isto é, a herança dos caracteres adquiridos,
neste caso justamente dos que servissem como vantagem, e permitissem
que o indivíduo pudesse procriar e sobreviver. Sem esta herança,
não há seleção natural exeqüível, nem evolução possível.
Hoje
em dia sabe-se que a seleção natural é conservadora e procura
manter uma espécie em sua mais original pureza. (51)
Além disso, ela carece de qualquer sentido onde não
existe reprodução sexual, o que deixa fora de seu âmbito o
imenso mundo dos unicelulares. Interessantes experiências
foram demonstrando que a seleção encontra limites que não
pode ultrapassar, por mais esforços que faça o selecionador.
Simplesmente os animais preferem morrer a continuar mudando.
Bergson
acredita que o evolucionismo de Spencer, o mais bem sucedido,
deve ser atualizado. E embora a sua teoria não tenha sido
demonstrada, “o testemunho da anatomia comparada, da embriologia
e da paleontologia”
constitui algo imponente. (52) Entretanto,
é completamente impossível explicar o resultado final por
pequenas mudanças adaptativas, ou por seleção natural. Como
já foi demonstrado, em um animal ou vegetal, todos os seus
elementos estão correlacionados, de modo a admitir somente
algumas poucas mudanças. Se a mudança lhe for imposta, ele
prefere morrer. Aqui Bergson descobre, ou melhor dizendo,
redescobre, a noção de finalidade, cara à filosofia que reconhece
a paternidade de Aristóteles. Infelizmente, como afirma Gilson,
“esta nova noção devia a sua novidade ao que era uma volta
à antiga finalidade imanente de Aristóteles, excetuadas as
formas que a tornavam possível.” (53)
As
formas aristotélicas seriam assim substituídas pelo elan
vital, espécie de universal presente de todo ser vivo;
presença incompreensível para os aristotélicos que continuam
pensando que o único que existe na natureza é o indivíduo.
Só falta explicar porque o elan vital produz organismos.
A resposta fica indefinida. Bergson só tenta uma solução por
via da adaptação, porém a resposta última está fora de seu
alcance pela sua concepção da inteligência e da razão. Em
todo caso, será ele sempre reconhecido como o filósofo que
melhor apontou as deficiências do mecanicismo.
No
início deste século XX, a teoria da evolução passou por uma
crise aguda. Não se podia encontrar uma causa de todo o processo,
pois as explicações de seus criadores, que já lembramos, eram
insuficientes. Porém uma descoberta extraordinária permitiu
renascer e fazer surgir o que agora chamamos de neo-darwinismo.
O achado salvador foi a descoberta das mutações: “agora
torna-se claro que a evolução se produz pela mutação de genes,
realizada pela fecundação aleatória das células germinativas”
(54).
Realizada
a mutação, a herança, que é absolutamente conservadora, a
reproduz, e a seleção natural rejeita a inconveniente para
deixar trânsito livre para a mais apta. Isso é o neo-darwinismo.
O que Darwin desconhecia, o como se produz uma mudança herdável,
é conhecido hoje, e será a seleção natural que julgará o que
será conservado e o que será eliminado.
Ultimamente
se descobriu que as mutações são causadas por alterações no
DNA, que são muito raras, e que são herdadas se afetam os
genes e cromossomos
responsáveis pela reprodução de um indivíduo. A experiência
demonstra que as mutações que afetam órgãos fundamentais são
sempre letais; só podem ter êxito as que afetam caracteres
acessórios. Disto se depreende que elas não poderiam produzir
espécies novas, mas sim unicamente variedades dentro de uma
mesma espécie. A razão última está em que cada órgão mantém
relação com todos os demais. Assim, o surgimento de uma nova
espécie requer um número enorme de mutações simultâneas, todas
se dando no mesmo sentido funcional e ao mesmo tempo. Claro
que uma mutação será funcional em um dado contexto e letal
em outro. Por isso não é possível prever se ela será letal
ou funcional. As mutações podem explicar talvez o surgimento
de raças ou subespécies, mas não se compreende como, por mero
acidente fortuito, possam aparecer órgãos novos e uma remodelação
total de um animal. (55)
Continuamente
estão sendo feitas experiências para a criação de novas raças
e toda a sorte de híbridos para melhorar as culturas agrícolas
e a alimentação humana. Tem-se descoberto, assim, a imensa
influência do meio como o mais decisivo na criação de raças
melhores segundo as exigências práticas do homem.
Entretanto,
apareceram dois fenômenos convergentes e inesperados. Por
um lado, as primeiras transformações são conseguidas rapidamente,
mas a partir de certo nível os esforços passam a ser menos
produtivos, até se tornarem completamente inúteis. Por outro
lado, as novas raças melhoradas, se forem abandonadas à sua
própria sorte, logo regressam à sua condição primitiva, e
se perde todo o trabalho. Existe algo, pois, nas espécies,
que com enorme tenacidade se opõe a todas essas manipulações
humanas, permitindo êxitos incríveis dentro de certos limites,
e nada mais. (56)
Entre
os biólogos que atualmente pesquisam o tema e defendem a evolução
darwinista, um dos poucos que aderem às idéias de Darwin é
o Professor E. Mayr. Ele nega que basta a mutação genética
para que ocorra a evolução. A evolução raramente é fruto de
mutação. A aquisição de uma nova função em uma estrutura preexistente
é a verdadeira causa. Neste ponto intervém especialmente o
ambiente e a seleção natural para confirmar as transformações
vantajosas. (57) Vemos que este professor de Oxford
une, assim, a teoria de Darwin com a de Lamarck. No mesmo
sentido Waddington reforça ainda mais a tese lamarquista da
importância dos esforços adaptativos do próprio organismo,
o que o levaria a desenvolver potencialidades latentes. (58)
Certamente Darwin teria estremecido ao ouvir das potencialidades
latentes, que destroem a sua seleção natural e convertem o
processo em um desenvolvimento propriamente evolutivo cuja
causa eficiente é preferentemente interior; por outro lado,
Lamarck e Spencer teriam se sentido muito bem interpretados.
A
teoria da seleção natural sofreu um rude golpe quando Francis
Galton (1822-1911) descobriu a regressão, segundo a qual os
caracteres selecionados pelos criadores regressam a seu estado
primitivo quando cessa a seleção. Em função disso, Hugo De
Vries (1848-1935) decidiu que a seleção só era possível aos
saltos, e não pouco a pouco como queria Darwin, mas em virtude
de mutações que fizessem aparecer repentinamente organismos
inteiramente novos: “a seleção por si só não conduz à origem
de novas espécies” (59)
H.
J. Müller (1890-1967) dedicou-se com intensidade ao trabalho
com mutações provocadas em laboratório. Observou então que
a maioria delas eram desfavoráveis, e chegou à conclusão de
que a seleção natural se incumbia de eliminá-las, e daí começou
a imaginar a criação de um homem perfeito, a partir de seleção
natural de mutações.
Suas
teorias serviram enormemente a Hitler para os seus sonhos
de uma raça pura, com base na teoria do “gene silvestre”
debilitado por genes de outras raças que o teriam contaminado,
e que, se fosse conseguido voltar à sua pureza primitiva,
finalmente daria lugar ao homem perfeito. (60)
Os
japoneses Kimura e Ohno criticaram fortemente os que sustentam
a evolução com base na seleção natural. Ambos os pesquisadores
insistem no papel conservador da mesma, que favorece aos melhor
adaptados. Para estes autores, unicamente a mutação aleatória
do DNA pode escapar da rigorosa vigilância que a seleção natural
impõe, e dar origem à evolução. Conseqüentemente retornam
eles à posição de De Vries segundo a qual a evolução se produz
por grandes saltos, por remodelações completas que fazem aparecer
organismos totalmente novos que, submetidos à seleção natural,
dão origem às raças e subespécies. (61)
O
matemático e biólogo G. Salet submeteu essa hipótese ao cálculo
matemático de probabilidades, e às leis dos grandes números
inventada por Borel. O resultado foi catastrófico para essa
nova hipótese. Acontece que não é possível esperar que se
produza um evento quando sua probabilidade é inferior a 10-200.
Conhecida a complexidade do DNA e o encadeamento de mutações
necessárias para produzir um órgão novo, a probabilidade de
que tal coisa ocorra é muito inferior àquele valor. Desta
maneira, conclui Salet, a evolução com base em mutações é
um mito que carece de qualquer base científica. Porém nada
significaria a ocorrência de um órgão novo. Como já destacou
Bergson, e antes dele muitos biólogos, dentre os quais Vialleton,
um ser vivo é uma correlação de órgãos. Devido a isso, é necessário
o ser vivo ser planejado em seu todo para que possa ser viável.
Certamente podem ser produzidas mutações que façam variar
as raças dentro de uma espécie, e talvez até mesmo as espécies
dentro de um gênero, e até poderia ser possível que se fizessem
variar os gêneros dentro de uma família. Embora nada disto
seja seguro nem esteja comprovado, talvez fosse possível.
Está comprovada tão somente a variação das raças no interior
de uma espécie. Entretanto, ascender a categorias superiores
da classificação biológica é absolutamente impossível. (62)
Para
achar uma causa adequada para a evolução, resta-nos tão somente
o recorrer a Deus. A evolução nasceu para negar que Deus tivesse
criado espécies diferentes desde o primeiro instante, e foi
defendida com ardor pelos ateus. Hoje em dia, o máximo que
poderia salvá-la seria que a criação se expressasse, pela
vontade de Deus, mediante uma evolução. O único problema reside
em que a biologia tem que encontrar uma causa biológica para
fundamentar a sua tese, e isso não se achará na noção de criação.
5.
Observações finais
Tentando clarear um pouco a confusão que esta exposição
terá deixado, gostaríamos de distinguir três posições diante
do problema da visão que o mundo biológico nos apresenta como
um desafio à imaginação com a inumerável diversidade de espécies,
variedades e indivíduos, sempre diferentes entre si.
Diremos,
então, que a primeira posição adotada nos tempos modernos
foi classificada de fixismo. É certo que este nome
e a sua caracterização nos foram impostos pelos evolucionistas,
mas conservemos a palavra. Podemos dizer que é uma postura
coerente. Uma espécie é o que na natureza fica delimitado
pela definição que se dá a ela. Da mesma forma, os gêneros,
famílias, etc., são todos definidos pelas suas características
fundamentais que são possuídas em forma exclusiva pelo grupo.
Supõe-se que as espécies tenham sido criadas pela Inteligência
Infinita, que lhes deu o lugar no mundo e a sua função na
natureza.
Como
se trata de uma postura filosófica e teológica, a ciência
não pode refutá-la nem descartá-la. Tão somente pode apresentar
certas dificuldades. A primeira resulta do fato de que não
é possível dar uma definição perfeita de espécie, gênero,
etc. Podemos definir um animal qualquer? Limitamo-nos a descrevê-lo
de forma incompleta, na maioria das vezes A outra dificuldade
resulta do fato de que a paleontologia nos apresenta o panorama
de uma variedade extraordinária através dos séculos. Ter-se-ia
de supor criações distintas? É sensato pensar que o Criador
intervém de modo extraordinário de tempos em tempos? Nenhuma
destas dificuldades é insuperável, mas não deixam de incomodar
a maioria dos cientistas atuais, que não olham com bons olhos
para esta postura.
A
segunda posição é a teoria da evolução, no estilo de
Spencer, Bergson, Teilhard, etc. Embora esteja expressa em
forma muito mais rigorosa que o transformismo darwinista,
ela enfrenta uma dificuldade grave: o que evolui?
Uma espécie é, em sentido estrito, um universal. Por
isso tal teoria seria inteligível em um universo platônico,
mas não em um aristotélico. Como o que evolui permanece de
alguma maneira, não resta outra solução a não ser a proclamação
da existência do universal dentro do singular, no mais puro
estilo do realismo medieval exagerado.
Para
os que estão familiarizados com o grande embate entre Guilherme
de Champeaux e Abelardo, esta teoria resulta ininteligível.
A
terceira teoria é o transformismo de Darwin e Wallace,
confundido com o evolucionismo de Spencer e Lamarck,
de tal modo que já se torna impossível conseguir a sua diferenciação.
Poderíamos dizer que esta explicação é coerente, se não supusesse
um universal existindo no ato em um singular. Entretanto,
parece-nos que ela nada explica enquanto não determina claramente
a causa da evolução ou transformação que afetaria os indivíduos
até transmutá-los tão radicalmente que tivesse de definí-los
de outra maneira.
Esclarecidas
as três posturas, convém que façamos ainda algumas observações
finais.
É
bastante simples falar de evolução das espécies quando se
conhece apenas um número mínimo dentre elas. Mayr calculou
em 1 milhão o número de espécies de animais, das quais conhecemos
melhor os vertebrados, que não passam de 35 mil. Entre essas
espécies se tem conseguido conhecer “evoluções” notáveis
dentro de certos limites. Porém entre os insetos, por exemplo,
com 815 mil espécies, existem abismos que separam os diversos
grupos, e nossa ignorância é quase total. Já vimos a descrição
da seleção natural feita por Wallace, e sua acomodação aos
tigres, porém a sua total inadequação aos vegetais, nos quais
não há nenhuma seleção em qualquer sentido inteligível do
termo.
Muitos
partidários da evolução reconhecem que ignoramos completamente
o como da transformação das espécies. Supõe-se que
existam leis que a regem, mas elas são inteiramente desconhecidas.
E mais ainda, Gilson faz notar que tanto o conceito de “espécie”
como de “evolução” são filosóficos e estranhos à biologia.
(63)
Jean
Rostand, prêmio Nobel de Medicina, agnóstico, declara sua
fé na evolução. E é uma fé, e não ciência, porque “deixa
sem resposta deliberadamente a formidável questão da origem
da vida e ... só propõe soluções ilusórias para o problema
não menos formidável, da natureza das transformações evolutivas.
... Estamos ainda esperando uma sugestão suficiente com relação
às causas das transformações das espécies. ... Quando falamos
de evolução, supomos a existência de uma natureza imaginária,
dotada de poderes radicalmente diferentes de tudo o que é
conhecido cientificamente. ... Creio firmemente ... que os
mamíferos procedem dos répteis, e os répteis dos peixes, mas
... prefiro deixar
vaga a origem dessas escandalosas metamorfoses, a acrescentar
à sua inverossimilhança uma interpretação ilusória.” (64)
Não
só se trata de uma ilusão, que em outro lugar ele chama de
“conto de fadas para adultos”, mas sim de algo ininteligível.
Na melhor das hipóteses poderíamos dizer que morre uma espécie
e aparece outra, mas com que direito garantimos que a primeira
causou a segunda? (65) Aristóteles jamais imaginou
que uma espécie se transformasse em outra, e com razão, pois
para uma espécie mudar isso significa que teria de deixar
de existir, (66) o
que é óbvio para quem tenha o conceito aristotélico de espécie
que se identifica com a sua definição. Se altero a definição,
simplesmente defino outra coisa.
Tudo
isto faz com que Salet afirme que, no fundo, a evolução é
tão só uma explicação verbal do mesmo tipo da tão ridicularizada
explicação segundo a qual o ópio faz dormir porque possui
uma “vis dormitiva”. (67) No
fundo se oculta a ignorância sobre a origem da vida e das
espécies com essa “vis evolutiva”.(68)
No
final das contas, reconhecemos com Dobzhansky
que uma espécie é um cume adaptativo, isto é, um animal
que sobrevive graças a ter um conjunto de órgãos perfeitamente
relacionados entre si. Entretanto, querem nos fazer crer que
ele provém de outro animal que carecia desses órgãos, e que
possuía outros. E como sobreviveria ele, se era distinto do
atual? E se sobrevivia era porque ele era um cume adaptativo,
e então, o que o impeliu a mudar? (69)
A
última palavra na teoria evolutiva moderna fundamenta-se na
importância conferida às mutações. Elas se produziriam por
puro acaso e seriam a causa da evolução. Sabemos que elas
não podem afetar órgãos essenciais nem criar órgãos inteiramente
novos; elas se limitam a modificar caracteres acessórios.
Salet demonstra a impossibilidade matemática de uma evolução
devida a essa causa, e nos dá muitos exemplos, dos quais citaremos
um só.
Suponhamos
que vamos produzir a cadeia beta da hemoglobina do sangue.
Trata-se de uma cadeia de proteínas. Os aminoácidos que constituem