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Raptores e raptadas

| Posted in miscelânia |

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As idéias do “reformador” sobre o matrimônio nos revelam a podridão moral dele e da sociedade de então em plena decadência e sem freio moral.

Numa atividade furibunda, febril, parecendo ex­citada pelo próprio demônio, Lutero multiplica pasquins dirigidos a todos, seculares e religiosos, homens e mulheres sem exceção. Leram-nos uns por curiosidade, atraídos pelo tom inflamado do estilo e, outros, por perversidade, a fim de com os maus levar avante a infernal Reforma.

Até mesmo nos conventos as doutrinas perversas penetraram.

Lutero considerava a castidade como um milagre, conforme escreveu ao prior de Lichtemberg: “Os votos religiosos, escreve ele, são nulos, pois exigem o impossível. A castidade não está em nosso poder, como não está a faculdade de fazer milagres. O homem não pode vencer a inclinação natural ao casamento. Quem quiser ficar solteiro deve depor o título de homem e provar que é um anjo ou um espírito, pois Deus não concede isto a um homem”.

O pobre prior, que por fraqueza sentia imenso desejo de depor o jugo divino, seguiu o conselho de Lutero e afinal se casou.

Tais doutrinas atraíram certas monjas ou falsas freiras, que haviam abraçado a vida claustral, sem vocação, por interesse ou por desgosto do mundo, achando elas na doutrina do falso frade um meio de se libertarem de um fardo que não podiam suportar, pois haviam abraçado a vida claustral sem vocação, por interesse ou por desgosto.

Havia em Nimbschen, perto de Grimnia, um convento de Cistercienses, onde imprudentemente as superioras haviam admitido moças mundanas, que ali procuravam antes salientar-se do que santificar-se.

Umas dentre elas entraram em entendimento com Lutero, que as aconselhou a deixarem o convento e a se reunirem perto dele afim de se casarem.

O reformador organizou um rapto, que confiou a seu amigo Leonardo Koppe mestre na arte.

Na quarta-feira Santa de 1523, com 16 companheiros, já invadira ele o convento dos “Franciscanos de Torgan”, lançando por cima do muro os religiosos que se haviam oposto e arrancando portas e janelas, porque os Franciscanos não aceitaram a reforma, nem a liberdade proposta.

Koppe, sob as ordens de Lutero, preparou para as monjas de Nimbschen uma fuga dramática.

No Sábado de Aleluia entrou no convento com um carro coberto, cheio de mercadorias, para a provisão das religiosas.

As monjas rebeldes ficaram de sobreaviso e tomaram as suas providências.

Enquanto descarregavam a carga, 12 monjas sorrateiramente ocuparam o caminhão vago, sem que o resto da comunidade desse pela evasão das luteranizadas, que seguiram para Wittemberg, onde foram acolhidas por várias famílias protestantes.

Lutero intitulou Koppe de “Bem-aventurado ladrão” e o comparou ao Cristo que também, tal um vencedor sublime, havia arrancado o seu reino das garras do príncipe do mundo. O pastor Amsdorf ofereceu logo uma das fugitivas em casamento ao vigário apóstata, dizendo como se se tratasse de coisa qualquer: “se quiseres uma mais nova, podes escolher entre as mais belas.” (Kolde Analecta Lutherana, p. 413).

O que nos dizem os contemporâneos sobre a moralidade destas infelizes egressas às quais se havia pregado a inutilidade das boas obras e a irresistibilidade da concupiscência, é realmente doloroso e humilhante. (Leonel Franca: Lutero e o sr. Fr. Hansen).

Melanchton, referindo-se às relações de Lutero com estas infelizes decaídas, deplorava a sua influência amolecedora, por si capaz de baquear os caracteres de mais rija têmpera.

Outro luterano, Eoban Esse, afirmava em 1523 que tais apóstatas não se deixavam vencer, em lascívia, por nenhuma cortesã. (Nulla phyllis nonnis est nostri mam­mosior – Epist. fam. Morpugi p. 87).

Entre as egressas, saídas do convento por influência de Lutero, se achava Catarina de Bora.

“Sem ser uma beldade, diz Grisar, Catarina ambicionava esposar Lutero ou Amsdorf”. Para ilaquear o seu preferido, multiplicou as armadilhas da astúcia feminina.

Pelas referências contemporâneas, os precedentes de Catarina não recomendavam muito sua moralidade.

A 10 de Agosto de 1528, Joaquim de Heyden escrevia à própria Catarina, recriminando-lhe o haver entrado em Wittemberg, como uma bailarina, e de aí ter vivido com Lutero, antes do casamento, como uma miserável decaída. (Enders Vol. VI p. 331).

Em 1523 já estivera em relações amorosas com Jerônimo Baumgastner, que mais tarde (1529) se casou com outra.

No mesmo ano (1523) Cristiano, rei da Dinamar­ca, desterrado, passou em Wittemberg e ai conheceu Catarina, que deste encontro conservou como lembrança significativa o presente de um anel. (Koestlin: Luther I. p. 728).

Eis os predicados de tal “nobre senhora, digna de todo respeito, pelos seus dotes de espírito e de coração”, tal como os protestantes o pretendem.

Vê-se logo, pelos fatos, que Catarina era uma criatura viciada, namoradeira, à cata de casamento, pouco diferindo de uma mulher perdida.

E Lutero se deixou “fisgar” por ela. É a palavra de Melanchton.

Qual teria sido a vida e quais as relações de Lutero e de Catarina, antes do casamento?

Pelo que vimos atrás descrito sobre a sua vida e os excessos praticados em Wittemberg, é difícil conjecturá-lo, se bem que a história não o relate, pois são coisas que não se descrevem e que o pouco de vergonha nele ainda existente o impedia divulgar.

Escrevendo a Ruhel, conselheiro de Mansfeld, o reformador disse: Se puder, a despeito do demônio, ainda hei de casar com Catarina. (De Wette II. p. 655).

Todas as suas liberdades com ela transpareciam em público e davam pasto às murmurações e comentários desfavoráveis. O apóstata resolveu por termo a todos os boatos, pela realidade do fato.

No sermão sobre o matrimônio Lutero havia dito: Do mesmo modo que não está em meu poder deixar de ser homem, assim também não posso viver sem mulher, e isto me é mais preciso que o comer e beber.

Considerando uma necessidade, o reformador quis satisfazê-la, e decidiu tomar por companheira a “sua” Catarina, a ex-monja Cisterciense.