SAUDADE
DO CHORO
Carlos Ancêde Nougué
É
comum ouvir, entre amantes de boa música (quer dizer, aquela
que se convencionou — não sei se com toda a propriedade
— chamar “erudita”), que o choro é, se tanto, arte
menor, meramente porque “popular”. E não raro, para evitar
dessas discussões de que não redundam senão trevas, deixei
de dizer do meu gosto por, entre outros, Ernesto Nazareth,
este artista instalado cômoda e belamente na fronteira entre
os dois rótulos acima aspeados. Pois bem, é enquanto escutava
(e escuto) o CD Valsas Imortais — Francisco Mignone
na Arte de Maria Josephina ao Piano que tomei (e
sigo com) coragem para escrever este elogio do choro,
ou melhor, este elogio da alma brasileira.
Antes de mais nada, há que fazer estrita justiça à arte do
mesmo Francisco Mignone (1897-1986), ressaltando-lhe
tanto o lado luminoso como o escuro. Mignone é das figuras
mais ilustres da nossa música. Flautista precoce, já aos treze
anos se apresenta em público, e ainda moço já lhe aparecem
as primeiras composições. Estuda em Milão com Vincenzo Ferroni,
e é-lhe incessante a atividade criadora, incessante e
abrangente, sobretudo, das formas musicais brasileiras (como
a seresta, o choro etc.) e de soi-disant formas
musicais indígenas e africanas. Em 1923 o regente Richard
Strauss inclui-lhe a Congada nos seus concertos,
e na década de 1940, à frente da Filarmônica de Nova
York, Arturo Toscanini grava-lhe a Festa das Igrejas.
Entre as suas 1.024 obras catalogadas, há dois oratórios,
quatro óperas, sete missas, 17 bailados, 170 composições de
câmera, 221 canções e 232 peças para piano solo. Monumental
é o menos que se pode dizer destes números, é perene
é o menos que se pode dizer de parte deles.
De parte, sim, porque de outra parte Mignone foi
vítima do mesmo mal que fez perder quase inteiramente
o talento de um Mário de Andrade e que torna exasperantes
certas peças do próprio Villa-Lobos: o populismo nacional-modernista.
Podem-se aplicar a este mal — o qual, semeado na indigência
indigenista finissecular e brotado da manifesta tolice
de 22, devasta a cultura brasileira até hoje — estas palavras
de Gustavo Corção, escritas, em 1957, com respeito ao
fenômeno universal de que o nosso populismo nacional-modernista
parcialmente deriva: “A mais humilhada das artes [a pintura] tirou
uma desforra completa. Fugiu do internato. Rasgou o uniforme.
E andou pelas ruas da cidade descabelada e impudica.
Fauvismo, cubismo, dadaísmo, futurismo, orfismo, sincromismo,
construtivismo, suprematismo, purismo, surrealismo, pós-cubismo
e pós-surrealismo, abstracionismo... A história continuava
a descrever a perigosa curva. E foi nos solavancos e na vertigem
da mudança geral de valores e critérios que se realizaram
as ofegantes experiências das ideologias estéticas. É difícil
discriminar o falso e o genuíno, o estéril e o fecundo, nessa
Babel de tentativas. É difícil saber qual é a parte de todo
esse conjunto em pânico que terá ingresso não nos salões oficiais
dos juízes carregados dos preconceitos das épocas, mas naquele
salão universal e apoteótico que os anjos contemplam. [...] O
espírito burguês está vivendo uma antítese do fixismo derrubado.
Tornou-se revolucionário, rotineiramente revolucionário. A
audácia de recusar foi substituída pela audácia de aceitar
e de fingir que compreende. Ao farisaísmo de 1870 responde
o mundo moderno com um publicanismo de infinita tolerância,
que muitos pensam ser uma infinita sabedoria. E, quando a
forma de [uma] poesia parecer esdrúxula demais, o público
tem uma moeda para comprá-la, uma fórmula para classificá-la:
arte moderna. Nós nos rimos dos críticos que insultavam Manet,
que hoje nos parece tão pacato e tão acadêmico. Quem se rirá
da benevolência de nosso tempo? O fato é que as formas surpreendentes
não surpreendem mais ninguém. A idéia de um transformismo
contínuo espalhou-se. E, com esse critério, vale tudo. E assim
o revolucionarismo da arte tornou-se a coisa mais rotineira
do mundo.”
Junte-se pois a isto a pitada insulsa do suposto nacionalismo de
raízes supostamente indígeno-africanas, e ter-se-á o fato,
triste, de que parte da obra de Mignone, por cacófona, não
há de acolher-se na harmonia das esferas.
Felizmente só parte da sua obra, porque a outra, sumamente
representada pelas Valsas que sigo escutando, há de incluir-se
naquele Salão apoteótico ao lado do Requiem de Luis
de Victoria, das Partitas de Bach, da Sinfonia em
dó maior nº 41 de Mozart, de tantos Lieder de
Schubert, da Batalha no Gelo de Prokofiev. E
antes de mais nada porque com estas Valsas — tanto as 12 valsas-choros
como as 12 valsas chamadas de esquina — “canta todo o
Brasil”, como disse Manuel Bandeira. Aqui, sim, está o Brasil
inteiro, está a sua alma, como nem de longe está nas incursões
moderno-populistas de Mignone. Veja-se, para o começarmos
a entender, a razão de ser da denominação “de esquina”.
As três primeiras valsas hoje assim denominadas não
o eram originalmente. Mas, ao ouvi-las, disse sabiamente
Mário de Andrade: “Essas valsas me reconduzem ao tempo da
minha mocidade, quando músicos seresteiros com suas flautas,
clarinetas e violões improvisavam, nas esquinas, inequívocas
mensagens melódico-românticas às moças que se escondiam atrás
de cortinas ou grades da época. E a música subia até elas,
que, ansiosas e suspirando, recebiam embevecidas a mensagem
sonora que os notívagos seresteiros prolongadamente tocavam.
Era o 'choro' que vinha lá das esquinas; ‘choro’ que muitas
vezes era misturado à brancura do luar ou ao piscar das estrelas.”
Aí está, claramente, a razão daquele nome, o qual
Mignone mais tarde estenderá ao conjunto das doze valsas escritas
em todos os tons menores da escala diatônica. Em todos os
tons menores, disse, e acrescento: em todos os tons do “choro”.
Do choro que vinha das esquinas e que, misturado ao branco
da noite, vinha também de mais longe ainda, de muito mais
longe: da melancolia, da lágrima doída que rebrota e
se faz arte, desde o Medievo, no solo das antigas tribos
lusitânicas.
Sim, ali mesmo onde desabrochou a Última Flor do Lácio, naquele
mesmo lado oeste de uma Península no qual se haviam
instalado os menos aguerridos ramos célticos da diáspora
babélica, forjara-se uma palavra úmida como um pranto: a tão
nossa “saudade”. Mas entenda-se corretamente este “tão nossa”.
Contrariamente ao que em geral se pensa em Portugal como no
Brasil, “saudade”, como qualquer outra palavra, tem
correlatos em todas as línguas do mundo, quer por termos únicos,
quer por locuções ou paráfrases. No lado leste daquela
mesma Península, no qual se haviam instalado
alguns dos mais aguerridos ramos célticos da diáspora
babélica — os celtiberos, entre eles — “saudade” diz-se
añoranza, que deriva do verbo añorar,
que descende do catalão enyorar, que por sua vez
vem do latim ignorare (ignorar, não saber onde está
alguém). Mas uma coisa é añorar e suas reverberações
duras como dura foi a resistência ao longuíssimo cerco romano
de Numância, e outra, muito diversa apesar da mútua traduzibilidade,
é “saudade”, que descende do latim solitate (soledade,
solidão), por intermédio do português arcaico soydade ou suydade,
e com influência tanto de saúde como de um termo
árabe que designa “melancolia” (o estado mórbido de tristeza
e depressão que se julgava causado pela bílis negra). O espanhol
consola-se de alguma añoranza sapateando marcialmente
um flamenco, ou indo ao circo de touros para gritar “olé”
à vitória do homem sobre as forças cegas da natureza; o português
chora a sua saudade rasgando na guitarra e na voz um fado,
quase como Édipo a cegar-se ante a inexorabilidade do
Fado, mas somente “quase”, porque o português que forjou a
tão nossa “saudade” não só já é cristão, como é
cristão de tipo muito especial — o tipo que forjou
corridas onde morre antes o homem, e nunca o touro.
E, se é fato que o fado é forma musical recente, igualmente
o é que ele, na sua essencial natureza de lamento e lágrima,
deriva remotamente não só das (não raro melancólicas) canções
cortesãs de amigo e de amor, mas também, por outro tronco,
das lástimas cantadas aos Sete Pesares que Santa Maria sofreu
por Seu Filho (“Tantas eu não teria / lágrimas que chorasse
/ quantas eu quereria, / se antes não me lembrasse / como
Santa Maria / viu quanto lhe doíam / as dores de Seu Filho,
/ antes que Ele a levasse”, diz a pungente Aver non
poderia do Trovador da Virgem, D. Afonso X, o Sábio,
o rei espanhol (século XII) que compunha unicamente em galaico-português). Pois
é desta nobre e cristã linhagem de pranto que descende,
em parte, também a valsa brasileira. Certas referências situam
em fins do século XVIII o surgimento aqui deste gênero
musical, mas é apenas do século XIX que data o primeiro documento
de natureza musical que tanto atesta a existência da valsa
como revela o seu autor: o nosso primeiro imperador, S.A.R.
D. Pedro. Mas há que distinguir a valsa de salão do tempo
do Império ou uma valsa de bravura para concerto (como
as compostas por Carlos Gomes), as quais como a
modinha têm, obviamente, sangue azul cosmopolita, da brasileiríssima
valsa caipira, ou de uma valsa dos chorinhos cariocas, ou
ainda da valsa lenta para piano, nas quais, como outra vez
na modinha, ademais de correr em alguma medida sangue
azul, também correm lágrimas como as que corriam já nas igrejas,
na corte e nos lares da Cristandade portuguesa e seguem
a correr sobre as atuais guitarras do fado. Uma
prova de tão intricados elos? Eis: este mesmo fado se
origina do lundu do Brasil colônia, gênero de
canção influenciado pelo lirismo da modinha, e introduzido
em Lisboa após o regresso de D. João VI, em 1821. É o vaivém
transoceânico do choro e da saudade, estas aves do lamento que
gorjeiam aqui exatamente como lá.
A arte sempre foi, desde a Antiguidade pagã, um tabernáculo
da lágrima, uma morada da dor humana. E pode-se dizer sem
receio de erro que nesta Antiguidade, cega pelo pecado
e vítima da corrupção religiosa, não havia outro refúgio para
o coração e suas penas. Foi ela tal refúgio, todavia, também
entre o povo eleito, que se lamentava em versos e versículos
tão poéticos quão lacerados como os do Eclesiastes — sob a
crua claridade do sol, só há mal e iniqüidade. Mas o
sábio que aí pranteava amargamente sabia, ao cabo, deixar
como suspensa a sua plangência: ele tinha já a ciência
do Senhor seu Deus, e a Sua promessa de um Redentor. E Este
veio, e nos redimiu pela Cruz, e nos deu, pelo mérito da
Sua morte na Cruz, a notícia da nossa ressurreição. O homem
já podia enxugar o pranto... mas não definitivamente. Chorou
o próprio Cristo a morte do amigo Lázaro, chorou a Sua
Mãe o choro do Filho de Deus e do Homem, e choramos os cristãos
o choro d'Ele e o choro d'Ela; choramos os cristãos o choro
da condição herdada da Queda, choramos o choro de todos os
homens e o choro de todas as coisas. Choram, choramos
todos. Choramos todos, como chorava Mozart em lieder e canções, a
saudade de um amor não correspondido; choramos, perpétuos
exilados, a saudade de todas as pátrias; choramos, permanentes crianças,
a saudade da mãe que já não nos pode embalar com braços de
carne; choramos, viúvos perenes, a saudade da cabeça
conjugal no leito do nosso ombro; choramos, pais truncados
e impotentes, a saudade e as dores distantes do
filho mui querido; choramos o amigo que foi morrer em
justa guerra, e o amigo que nos morre por iníqua, traiçoeira
guerra. E choramos os cristãos, ademais, o pecado, o
pecado de todos nós, as ofensas sem fim ao Senhor dos
exércitos e Deus da Bondade. E não podemos deixar de chorar
nós, os cristãos, apesar de nos sabermos redimidos e apesar
da notícia da ressurreição, porque fazê-lo seria pecar por
soberba — seria considerarmo-nos isentos de dores,
acima das criaturas e suas lágrimas, acima das seqüelas do
pecado original. Seria comer, outra vez, da Árvore
da Ciência do Bem e do Mal, como outra vez o fizeram aqueles
que, pela vã cobiça e ante o lamento do Velho de Restelo, se abalançaram
sem lágrimas atrás da Fama e do longínquo ouro deste mundo;
como outra vez o fazem os tantos cínicos modernos, os construtores
de paraísos terrestres, os inventores da linhagem símia
para o homem, os descobridores da origem do universo numa
concentração ínfima e explosiva de energia, os que riem
desgarradamente da Fé, da Esperança, da verdadeira Caridade
com os dentes cariados da sua própria condenação.
Digamos sempre com Gustavo Corção: “Não basta, ó poeta [Carlos
Drummond de Andrade], mostrar às almas aflitas a doçura
das relvas, a frescura das ondas, e a ternura dos regaços
de amor. Porque isto não é toda a verdade da vida. E é preciso
ser verdadeiro. É preciso, sempre, ser verdadeiro. Em toda
a extensão. Em toda a profundidade. Nos dois hemisférios de
luz e sombras da verdade. O que é preciso dizer, a esses moços
que por tão pouco desesperam [e se matam], é que existe
uma dignidade no centro mesmo da dor; que a dor não excomunga;
que a dor já foi santificada para que possa santificar. O
que é preciso, ó poeta de alma grande, é abrir vela ao mar,
e descobrir a verdadeira extensão do mundo e da vida. Ah!
essa história maravilhosa que a mim me contaram, como eu gostaria
de lha contar longamente! longamente!”
Mas o choro do cristão, se não pode desprezar nunca o
choro alheiro, e se não pode interromper-se nunca de todo,
também não pode ser ininterrupto... nem copioso. Porque
nos sabemos redimidos, e porque temos a notícia da ressurreição,
o nosso choro há de ser como a lágrima que estancamos
com a parte superior do índice ou com a ponta de um doce
lenço. Há de ser como o choro de Cristo antes da ressurreição
de Lázaro, como o choro da Santa Maria de Afonso X, como o
choro contido das nossas melhores Piedades em pedra ou mármore.
Chorar ininterrupta e/ou copiosamente a nossa miséria
é fazer ouvidos moucos às Palavras ditas na Cruz e à Notícia
da Vida, e é pois também pecar por soberba. É comprazer-se
com os sartrianos de todos os matizes num inferno
de náusea e de lágrimas flamantes; é a forma em negativo
do amor-próprio, é a outra face da vã cobiça. Escutemos
Pascal: se é perigoso salientar a grandeza do homem sem lembrar
a sua ignomínia, é-o por igual mostrar demasiadamente, como
regozijando-se com isto, quanto ele se assemelha com
os animais sem mostrar a sua grandeza. “Tão grande é
o homem”, escreve o nosso pensador de Port-Royal, “que até
naquilo em que se reconhece miserável transparece sua grandeza.
Uma árvore não sabe que é miserável. É bem verdade que já
há miséria no reconhecimento da miséria; mas há também grandeza
na consciência de ser miserável. Assim, todas as misérias
do homem provam a sua grandeza! são misérias de grão senhor,
misérias de rei despojado.” E tal vale, como regra
de equilíbrio dinâmico, tanto para a vida individual
como para a vida das civilizações. E pois para a arte,
este ponto único de encontro entre o singular e o geral.
Ora, a civilização em que nos cabe hodiernamente viver começou
por um desequilíbrio, e está a terminar por outro. O Renascimento
foi uma febre alta, em que arderam os sentimentos de
exaltação e de grandeza do homem, “com esquecimento”, como
diz Corção, “do espírito de temor e penitência”; movidos pelo
ideal de fama e glória, os artistas de então, os bons
como os maus, ostentavam sem rebuço a avidez de encômios e
a ânsia de lauréis. Esquecera-se a lágrima, cultivava-se
a baba melíflua das cobiças. Mas houve que passar os séculos,
e transmudar-se em humilhação e indigência a quimera
da cupidez e da evolução. Que vemos hoje, e particularmente
nas artes, senão o espetáculo do pessimismo entronizado, a ditar
não lágrimas de sangue nem, muito menos, lágrimas sabéias
ao Senhor, mas lágrimas intermináveis de menino que chora
apenas a frustração da sua traquinice e a dor da dura palmada
paterna? “Para descrever ao vivo as misérias de um Marmeladoff”,
diz ainda e sempre Gustavo Corção, “é preciso ter a grandeza
de um Dostoievsky. E, quanto mais baixa for a baixeza, maior
deverá ser a elevação do artista que deseja mostrá-la. É preciso
subir aos céus para ver com transparência a profundidade dos
mares. É preciso ter experiência, experiência de piedade e
não de ressentimento, experiência de amor e não de decepção
de adolescente, experiência de humildade e de dor, mas de
dor mansa e paciente, para descobrir o segredo inteiro, completo,
com todo o seu terrível baixo-relevo, da humanidade.”
E, se tal é maximamente verdadeiro para cada obra de arte,
também o é para o conjunto da expressão artística das civilizações. Naturalmente,
o equilíbrio dinâmico de que fala Pascal não se dá igualmente
em todas as nações, nem nas cristãs. Por certo dava-se diferentemente
na Espanha e no Portugal católicos. Neste mais que naquela,
no Brasil mais que na América Hispânica, o pêndulo sempre
tendeu à lágrima e ao lamento, às Dores de Santa Maria, à
plangência de Camões, ao pranto da viola caipira sob o luar
do sertão (e, quando deixou de fazê-lo, naufragou-se na voragem
do triunfalismo sebastianista); isto, porém, no quadro mais
ou menos estrito do Catolicismo, nunca se sobrepôs à Fé. “Alma
minha gentil, que te partiste / Tão cedo desta vida descontente,
/ Repousa lá no céu eternamente, / E viva eu cá na terra sempre
triste”, chora Camões o desconcerto da viuvez, para depois,
alhures, cantar com Santa Úrsula o anseio do eterno
Colo do Pai e, assim, enxugar com a pontinha
do largo lenço da Esperança a lágrima do amor cindido.
E não diz Machado de Assis a Cristo: “Senhor, [...]
a vida é aflitiva, e aí está o Eclesiastes, que diz ter visto
as lágrimas dos inocentes, e que ninguém os consolava”, para
obter em resposta: “Bem-aventurados os que choram, porque
eles serão consolados”?
Mas
aquele germe de corrupção que se lançou, já no mui distante
século XIII, com a guerra ao tomismo, e que viu nascer os
seus frutos mais podres já imediatamente após a morte de Santa
Joana d'Arc, e que tomou proporções dantescas, no universo
lusitano, já com o triunfo de Pombal e da maçonaria, produz
hoje, especialmente no Brasil, o inominável. Está perdida
a alma brasileira. Perdemos as raízes da Lusitânia medieval,
da arte refinada de Camões e de Machado de Assis, da saudade
sertaneja e do choro carioca, e cada vez mais se silencia
sobre o único que desta alma e raízes nos resta: o armorial
do Nordeste, a sua arte gretada como o chão da
seca, e fendida como as costas dos Penitentes. Em troca
de que, Deus do Céu, se quer matar esta morte redimida e transfigurada em
belo? Em troca do pessimismo de almanaque dos novos “talentos”
literários, vomitados abundantemente no mercado livresco como
automóveis último-tipo, ou da alegria esfuziante do carnaval
cingido de cimento niemeyeresco, dos requebros corporais e
mentais dos Caetanos de todas as Bahias, da arte real-revolucionária
dos raps pró-Lula e pelos direitos dos delinqüentes.
Sim, ainda se pode comprar um CD como Valsas Imortais
— Francisco Mignone na Arte de Maria Josephina ao Piano,
assim como se podem comprar as Obras Completas de
Fernando Pessoa ou Estrela da Vida Inteira, de Manuel Bandeira, nas
megalivrarias das grandes capitais. No mercado, afinal,
tudo se encontra. Mas já não brotam Pessoas nem Bandeiras,
além como aquém-Atlântico. Nem Mignones. Como haveriam
de brotar, se já não se nos fertiliza o solo com autênticas
lágrimas, com a saudade vinda das entranhas
do espírito lusitânico, com a arte menor (ou seja, em linguagem
tomista, segunda na ordem pura do estético, mas nunca
secundária, antes primária, na ordem da civilização) das valsas
e choros sentimentais, seresteiros, saudosos, violoneiros
que rebrotaram nestas tocantes 24 valsas de Francisco Mignone
(uma delas é pura recriação da melancólica “O cravo brigou
com a rosa...”). Disse “rebrotaram”, e disse-o bem: rebrotaram
como arte maior. Nada ficam a dever estas duas dúzias de pérolas
musicais aos melhores Noturnos de Chopin, e superam-lhe os
mais romanticamente derramados e longos, precisamente pela
sua concisão de lágrima que se enxuga com a parte superior
do índice... (Algumas peças de Chopin, como alguns concertos
e sonatas de Brahms, por gigantes que sejam os seus autores,
tangenciam o pranto falso daquele comprazer-se com a própria
miséria; é o pecado do romantismo extremo.) São,
como os melhores Noturnos de Chopin, autêntica transfiguração
da lágrima em belo artístico, ou seja, neste gênero de
símbolo como tetraédrico, que se constrói 1) como belo em
si mesmo, 2) como forma significante de um aspecto qualquer
da criação, 3) como melancolia pelo perecível do seu material,
e 4) como saudade e ânsia do Belo que não perece.
Mas também estas 24 Valsas de Mignone, como os Noturnos
de Chopin, como os prantos poéticos de Camões, como os “Eclesiastes”
de Machado de Assis são, por seu turno, arte menor —
do ângulo da vida eterna. Nela estas obras, por um lado,
devem de julgar-se segundas, porque já não haverá nem
sombra do seu motivo mais imediato, ou seja, a dor do
homem, a lágrima da contorção de todas as carnes e da crispação
de todas as almas; mas, por outro lado, devem de julgar-se
primárias, e perenizar-se talvez como brilhos do mais luzidio
mármore, ou talvez como os mármores do nosso mais refulgente
brilho.