Machado
de Assis
(Crônica)
A
SEMANA foi santa — mas não foi a semana santa que eu
conheci, quando tinha a idade de mocinho nascido depois da
guerra do Paraguai. Deus meu! Há pessoas que nasceram depois
da guerra do Paraguai! Há rapazes que fazem a barba, que namoram,
que se casam, que têm filhos, e, não obstante, nasceram depois
da batalha de Aquidabã! Mas então que é o tempo? É a brisa
fresca e preguiçosa de outros anos, ou este tufão impetuoso
que parece apostar com a eletricidade? Não há dúvida que os
relógios, depois da morte de López, andam muito mais depressa.
Antigamente tinham o andar próprio de uma quadra em que as
notícias de Ouro Preto gastavam cinco dias para chegar ao
Rio de Janeiro. Ia-se a São Paulo por Santos. Ainda assim,
na semana, os estudantes de Direito desciam a serra de Cubatão
e vinham tomar o vapor de Santos para o Rio. Que digo? Cá
houve em que vieram unicamente assistir à primeira representação
uma peça de teatro. Lembras-te, Ferreira de Meneses? Lembras-te,
Sisenando Nabuco? Não respondem; creio que estão mortos.
Aí
vou escorrendo para o passado, cousa que não interessa no
presente. O passado que o jovem leitor há de saborear é o
presente lá para 1920, quando os relógios e os almanaques
criarem asas. Então, se ele escrever nesta coluna, aos domingos,
será igualmente insípido com as suas recordações.
Tempo
houve (dirá ele) em que o primeiro Frontão da Rua do Ouvidor
descendo, à esquerda, perto da Rua de Gonçalves Dias, era
uma confeitaria, Confeitaria Pascoal. Este nome, que nenhuma
comoção produz na alma do rapaz nascido com o século, acorda
em mim saudades vivíssimas. A casa da mesma rua, esquina da
dos Ourives, onde ainda ontem (perdoem ao guloso) comprei
um excelente paio, era uma casa de jóia, pertencente a um
italiano, um Farani, Cesar Farâni, creio, na qual passei horas
excelentes. Fora, fora memórias importunas!
Assim
poderá escrever o leitor, em 1920, nesta ou noutra coluna;
para os jovens desse ano não será menos aborrecido.
Mas,
por isso mesmo que os há de enfadar, deixe-me enfadá-lo um
pouco, repetindo que a semana santa que acabou ontem ou acaba
hoje não é a semana santa anterior à passagem do Passo da
Pátria ou ao último ministério Olinda.
As
semanas santas de outro tempo eram, antes de tudo, muito mais
compridas. O Domingo de Ramos valia por três. As palmas que
traziam das igrejas eram muito mais verdes que as de hoje,
mais e melhores. Verdadeiramente já não há verde. O verde
de hoje é um amarelo escuro. A segunda-feira e a terça-feira
eram lentas, não longas; não sei se percebem a diferença.
Quero dizer que eram tediosas, por serem vazias. Raiava, porém,
a quarta-feira de trevas; era princípio de uma série de cerimônias,
e de ofícios, de procissões, sermões de lágrimas, até o sábado
de aleluia, em que a alegria reaparecia, e finalmente o Domingo
de Páscoa, que era a chave de ouro.
Tenho
mais critério que meu sucessor de 1920; não quero matá-lo
com algumas notícias que ele não há de entender. Como entender,
depois da passagem de Humaitá, que as procissões do enterro,
uma de São Francisco de Paula, outra do Carmo, eram tão compridas
que não acabavam mais? Como pintar-lhes os andores, as filas
de tochas inumeráveis, as Marias Behus, segundo a forma popular,
centurião, e tantas outras partes da cerimônia, não contando
as janelas das casas iluminadas, acolchoadas e atapetadas
de moças bonitas — moças e velhas — porque já naquele tempo
havia algumas pessoas velhas, mas poucas. Tudo era da idade
e da cor das palmas: verde. A velhice é uma idéia recente.
Data do berço de um menino que vi nascer com o ministério
Sinimbu. Antes deste — ou mais exatamente, antes do ministério
Rio Branco — tudo era juvenil no mundo, não juvenil de passagem,
mas perpetuamente juvenil. As exceções, que eram raras, vinham
confirmar a regra.
Não
entenderíeis nada. Nem sei se chegareis a entender o que sucedeu
agora, indo ver o ofício da Paixão em uma igreja. Outrora,
quando de todo o sermão da montanha eu só conhecia o padre-nosso,
a impressão que recebia era mui particular, uma mistura de
fé e de curiosidade, um gosto de ver as luzes, de ouvir os
cantos, de mirar as alvas e as casulas, o hissope e o turíbulo.
Entrei na igreja. A gente não era muita; sabe-se que parte
da população está fora daqui. Metade dos fiéis ali presentes
eram senhoras, e senhoras de chapéu. Nunca me esqueceu o escândalo
produzido pelos primeiros chapéus que ousaram entrar na igreja
em tais dias; escândalo sem tumulto, nada mais que murmuração.
Mas o costume venceu a repugnância e os chapéus vão à missa
e ao sermão. Algumas senhoras rezavam por livros, outras desfiavam
rosários, as restantes olhavam só ou rezariam mentalmente.
Não quero esquecer um velho cantor de igreja, que ali achei,
e que, em criança, ouvira cantar nas festas religiosas; creio
que nunca fez outra cousa, salvo o curto período em que o
vi no coro da defunta Ópera Nacional. Que idade teria? Sessenta,
setenta, oitenta...
Soou
o cantochão. Chegou-me o incenso. A imaginação deixou-se-me
embalar pela música e inebriar pelo aroma, duas fortes asas
que a levaram de oeste a leste. Atrás dela foi o coração,
tornado à simpleza antiga. E eu ressurgi, antes de Jesus.
E Jesus apareceu-me antes de morto e ressuscitado, como nos
dias em que rodeava a Galiléia, e, abrindo os lábios, disse-me
que a sua palavra dá solução a tudo.
—
Senhor, disse eu então, a vida é aflitiva, e aí está o Eclesiastes
que diz ter visto as lágrimas dos inocentes, e que ninguém
os consolava.
—
Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados.
—
Vede a injustiça do mundo. "Nem sempre o prêmio é dos
que melhor correm, diz ainda o Eclesiastes, e tudo
se faz por encontro e casualidade."
—
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque
eles serão fartos.
—
Mas é ainda o Eclesiastes que proclama haver justos,
aos quais provêm males...
—
Bem-aventurados os que são perseguidos por amor da justiça,
porque deles é o reino do céu.
E
assim por diante. A cada palavra de lástima respondia Jesus
com uma palavra de esperança. Mas já então não era Ele que
me aparecia, era eu que estava na própria Galiléia, diante
da montanha, ouvindo com o povo. E o sermão continuava. Bem
aventurados os pacíficos. Bem-aventurados os mansos...